28
abr
Bater Perna, Europa

Terezín

A viagem de trem dura aproximadamente uma hora. Percorrendo o mesmo caminho que os judeus fizeram, chegamos à estação de Bohušovice. Para muitos deles, no entanto, foi uma viagem só de ida. O destino: o gueto de Terezín. Um lugar fictício, mas real. Real para quem olhava de fora. Fictício para quem vivenciava diariamente as crueldades de um campo de concentração.

001 - Estação de Bohusovice

002 - Placa na estação

Terezín foi uma cidade fortificada criada pelo Imperador José II para defender as fronteiras do Império Austro-Húngaro contra invasões da Prússia. A cidade murada foi batizada em homenagem à Maria Teresa, mãe do imperador. Durante a Primeira Guerra, foi usada como prisão política e serviu de cárcere para Gavrilo Princip, o sérvio que desencadeou a Primeira Guerra ao assassinar o arquiduque Francisco Ferdinando. Com a anexação dos Sudetos pela Alemanha, foi a vez dos nazistas usarem a fortaleza como prisão para presos políticos e gueto para os judeus. Terezín foi um campo diferente dos demais por não ter sido um campo da morte – apesar de que, inevitavelmente, devido às péssimas condições de vida, muitos acabavam morrendo de desnutrição e doenças como pneumonia e enterite. Na verdade, Terezín era apresentado às autoridades mundiais como um assentamento modelo dos judeus, um disfarce para camuflar o que realmente acontecia com eles. O campo tinha até mesmo uma moeda própria, que, claro, não valia nada fora das muralhas de Terezín. A própria Cruz Vermelha chegou a visitar o lugar e constatou que os judeus levavam uma vida normal no gueto. Eventualmente, os judeus eram enviados para o leste rumos aos campos de extermínio.

003 - Mapa de Terezín

004 - Crematório

005 - Cemitério

006 - Fortaleza

007 - Caixões

008 - Memorial

009 - Trilhos

010

011 - Terezín

012 - Terezín

013 - Terezín

014 - Terezín

015 - Praça Central

Por mais que se fale que o destino daqueles que foram deportados para Terezín era muito melhor do que os dos que foram para outros campos, bem, o meu padrão de comparação continua sendo a vida que os judeus tinham antes da guerra. Não obstante a situação peculiar em que se encontravam se compararmos com Sobibor e Auschwitz, Terezín era igualmente terrível, um horror para quem antes tinha uma vida sem restrições de qualquer ordem. Mas fato é que neste gueto havia mais atividades culturais como teatro e música do que em qualquer outro gueto ou campo, atividades por meio das quais era possível escapar, ainda que momentaneamente, do pesadelo diário. Isso se deu em parte porque Terezín foi a morada temporária de uma elite artística que produziu bastante enquanto estava presa, muito mais do que em outros campos e guetos. A arte era usada como uma maneira de dar significado à vida e de ajudar a superar aquela situação. No entanto, havia a arte oficial e a arte clandestina. Muitas das pinturas e desenhos retratavam as verdadeiras condições do gueto e por isso tiveram que ser escondidos dos nazistas. Esses retratos do dia a dia foram achados após a guerra e hoje, estão expostos no museu de Terezín e na Sinagoga Pinkas, em Praga – uma triste lembrança de uma época não muito distante.

Houve muitos casos de resistência armada durante a guerra, a grande maioria, sem sucesso, mas houve também outros tipos de resistência e acho que Terezín me marcou mais justamente pela maneira como os judeus tentaram achar para sobreviver naquela adversidade. Tentar aliviar o sofrimento por meio das artes não deixa de ser uma forma de resistência.

Outro exemplo de resistência não armada que achei muito forte foi a sinagoga secreta. Com o fim da guerra, as casas foram devolvidas aos antigos moradores. Eis que durante uma obra em uma dessas casas, o proprietário acabou descobrindo as inscrições em hebraico na parede. Proferir a religião também era proibido no gueto. Por ser uma pessoa muito religiosa, Asher Belinger construiu em Terezín um lugar onde era possível encontrar conforto em meio a todo aquele infortúnio. Cada pessoa acha maneiras diferentes de lidar com situações adversas e a religião foi a maneira pela qual muitos optaram.

016 - Sinagoga

017 - Sinagoga

018 - Réplica de habitação

019 - Réplica de habitação

020 - Réplica de habitação

021 - Réplica de habitação

A Segunda Guerra foi uma época inimaginável para muitas pessoas e ao passo que foi uma vitrine do pior da humanidade, também houve espaço para muitas pessoas mostrarem que sim, pode haver esperança e sim, há seres humanos boníssimos que não medem esforços para fazer o que é certo mesmo quando aquilo parece errado. Um desses justos foi Sir. Nicholas Winton. Na volta de Terezín, paramos na estátua dedicada a ele na estação de Praga. Sir Nicholas Winton é um britânico que passava férias na Tchecoslováquia pouco antes de a guerra estourar. Preocupado com o crescente medo das populações perseguidas, ele se empenhou ao máximo para tirar do país crianças de famílias judias. Em um esforço que envolveu centenas de pessoas, ele conseguiu salvar 669 crianças. Crianças que cresceram, se casaram, tiveram filhos e deram continuidade a gerações. Um exemplo de vida.

022 - Sir Nicholas Wintonhttp://www.youtube.com/watch?v=ZC7D6zNWlVw