21
fev
Bater Perna, Europa

Mayn Shtetele Prag

Praga não é e nunca foi exatamente um shtetl[1], mas a música Mayn Shtetele Belz me veio à cabeça enquanto passeava por Josefov, o bairro judaico. Me veio à cabeça porque não é difícil imaginar a Praga de antigamente onde hoje há um dos bairros mais caros da cidade. Um lugar cercado por um muro onde o isolamento muitas vezes significava também proteção, proteção contra as perseguições de que os judeus eram vítimas. Um lugar onde a cultura pode florescer e onde várias lendas surgiram.À medida em que os judeus foram ganhando direitos, eles foram abandonando o gueto, região na qual eram obrigados a morar. O próximo passo foi a derrubada do muro e a anexação do distrito à cidade de Praga. Entre 1893 e 1913, o bairro sofreu uma reurbanização que visava a dar um ar mais parisiense à cidade. As ruelas e cortiços foram dando lugar a ruas amplas e planejadas.

O nome do bairro é uma homenagem ao Imperador José II, que não só permitiu a volta dos judeus a Praga depois que eles haviam sido expulsos da cidade, mas que também aprovou o Edito da Tolerância (1781) que oficializou a tolerância religiosa e permitiu que os judeus participassem da vida econômica da cidade e frequentassem instituições de ensino superior.

01 - Josefov

02 - Josefov

Os prédios da comunidade judaica foram preservados durante a Segunda Guerra. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo da população. O fato é que muito da cultura foi preservada, pois os nazistas pretendiam fazer um infame museu da extinta raça judaica. Para isso, usaram a Sinagoga Espanhola (Španělská Synagoga) como depósito para todos os itens que foram pilhados em todo o território tchecoslovaco. A sinagoga sobreviveu e hoje abriga uma exposição sobre a vida judaica. Não deixe de visitá-la. A fachada simples esconde uma das mais belas sinagogas que eu já visitei. Com frequência, há concertos de música klezmer[2], mas infelizmente, o calendário deles não combinou com o meu.

03 - Sinagoga Espanhola

04 - Sinagoga Espanhola

Ao comprar o ingresso na Sinagoga Espanhola, peça o que dá direito a todas as atrações, inclusive a Old New Synagogue (Staronová Synagoga), que tem o ingresso vendido à parte. Essa sinagoga data de 1240 e é a mais antiga ainda em funcionamento fora de Israel. Há duas versões para o nome da sinagoga. Uma é que ela foi a primeira de Praga, a Nova Sinagoga. Quando outras foram construídas, ela passou a ser a Antiga Nova Sinagoga (Old New Synagogue).

A versão que eu mais gostei foi a que diz que a sinagoga foi construída por anjos com pedras do Muro da Lamentações. Eles as emprestaram com a condição de que as pedras fossem devolvidas quando da vinda do Messias. “Com a condição de que” é “betnay” em hebraico, e foi assim que a sinagoga passou a ser chamada (Betnay Synagoga). Acontece que durante muito tempo, alemão foi a língua usada naquelas terras e toda vez que alguém perguntava o nome da sinagoga, eles respondiam “Betnay synagoga” e os gentios entendiam “altneu”,  e foi assim que a corruptela vingou. É, talvez a versão mais simples seja a verdadeira…

05 - Old New Synagogue

06 - Old New Synagogue

07 - Old New Synagogue

Reza a lenda que no sótão da sinagoga descansa o golem, criatura mítica de barro criada pelo rabino Loew para proteger os judeus no gueto e ajudar no trabalho do dia a dia.

08 - Golem

É do lado dessa sinagoga que se encontra a prefeitura do bairro, com o seu inconfundível relógio em hebraico. Olhar as horas no relógio de ponteiro é complicado pra você? Que tal tentar nesse cujos ponteiros andam no sentido anti-horário?

09 - Prefeitura

O Bairro Judaico é relativamente pequeno e pode ser percorrido a pé. Cada sinagoga abriga uma exposição diferente. As paredes da Sinagoga Pinkas (Pinkasova Synagoga) estão grafadas com os nomes de todos os judeus tchecos que morreram no holocausto. É lá também a entrada do cemitério judaico, um amontoado de túmulos e lápides que sobreviveu mais de mil anos, dentre elas, a do criador do golem. No entanto, o que mais chama a atenção nesse museu é a exposição de desenhos feitos pelas crianças que estavam no campo de concentração de Terezín. Frederika Dicker-Brandeis deu aula de arte para as crianças, pois acreditava que assim eles não perderiam a humanidade completamente. Antes de ser deportada para Auschwitz, ela escondeu todos os desenhos em uma mala. Os desenhos retratam o dia a dia das crianças no gueto e os sonhos delas.

10 - Pinkasova Synagoga

11 - Cemitério Judaico.

A Klausova Synagoga abriga uma exposição sobre os costumes e tradições judaicas.

Por sua vez, a Maiselova Synagoga conta com uma exposição sobre a história dos judeus na região da Boêmia e Morávia; O nome é uma homenagem a Mordechai Maisel, um filantropo da comunidade. Ele doou dinheiro para construção da prefeitura, de sinagogas, além de financiar várias organizações judaicas e assistenciais.

12 - Maiselova Synagoga

Você pode ir além e visitar também a Sinagoga Jubileu e a Simchov, que não se encontram em Josefov. Eu bem que tentei visitar a Jubileu, mas a senhora que atendeu o interfone me disse que a sinagoga não estava aberta, apesar de a placa dizer o contrário.

13 - Rua Jerusalém

14 - Sinagoga Jubileu

Eu aproveitei para experimentar o restaurante Dinitz, de comida judaica. O veredito? Bem, eu pedi  borscht, uma sopa de beterraba. A comida não estava ruim, mas também não estava excelente. O que mais me decepcionou foi o fato de que eu estava esperando um ambiente que remetesse a um shtetl, um lugar onde estivesse tocando klezmer. Ao invés disso, tocava música israelense.


[1] Shtetl é o diminutivo de cidade, em iídiche. O termo é usado para definir uma cidadezinha ou um povoado de maioria judaica, comum na Europa Oriental. Um lugar onde a religião era observada e os costumes, seguidos à risca.

[2] Estilo musical dos judeus do leste europeu.