04
fev
Bater Perna, Europa

Praga: amor à primeira visita!

Art noveau? Tem. Bastante. Cubismo? Tem. Barroco? Tem. Gótico também. E não nos esqueçamos do neoclássico. Praga é um colírio para os olhos, uma cidade não só belíssima, mas também sedutora. E a cidade tem uma aura de nostalgia que a torna ainda mais especial. Praga é sem dúvida um dos lugares mais bonitos que eu já visitei em toda a minha vida. Praga é impressionante. Se você ainda não foi, vá.  Se já foi, volte.

Com tanta História relacionada ao que estudamos no segundo grau, é de se surpreender que a História do que hoje é a República Tcheca não seja contada nos nossos livros de História senão a partir da Segunda Guerra Mundial. Durante séculos, a nação lutou para se livrar do domínio de estrangeiros: a Igreja Católica, os Habsburgos, os alemães e, mais recentemente, os russos. Foi lá que surgiu o primeiro reformista e foi lá também que se iniciou uma das mais longas guerras europeias: a Guerra dos Trinta Anos. Tudo porque alguém decidiu jogar alguém pela janela.

Fundada por uma tribo celta chamada Boii, o lugar ficou conhecido como Boêmia (Boii + Heim, a palavra em alemão para lar, terra). Posteriormente, os celtas foram empurrados pelos eslavos que iam chegando do leste e acabaram se estabelecendo na região. Mas foi um longo trajeto até o país firmar as atuais fronteiras e ser chamado de República Tcheca.

O fim da Primeira Guerra enfraqueceu o Império Austro-Húngaro, que exercia controle sobre uma ampla região da Europa. Tchecos e Eslovacos aproveitaram o momento e concordaram em fundar um Estado único para os dois povos, além de terem elegido Praga como capital. Foram vinte anos de independência até a anexação da região dos Sudetos pelos nazistas, ao argumento de que a maioria da população da região era de origem germânica. França e Reino Unido, temendo uma nova Guerra Mundial, consentiram com o projeto expansionista de Hitler. Só se esqueceram de consultar os tchecoslovacos. A eleição democrática de Hitler acabou manchando a ideia que os tchecoslovacos tinham de democracia, o que acabou culminando com a eleição do Partido Comunista após a Segunda Guerra Mundial. Com a benção de Stalin, os comunistas tchecoslovacos acabaram fundando um estado comunista que durou até 1989, quando a Revolução de Veludo pôs fim a anos de dominação russa. Logo depois, República Tcheca e a Eslováquia, alegando incompatibilidade de gênio, assinaram um divórcio amistoso.

O velhinho simpático que estampa as notas de 100 coroas é Carlos IV, venerado no país por ter sido um monarca, que não só contribuiu muito para dar a Praga a cara que ela tem hoje, mas cuja mente visionária foi responsável, dentre outras coisas, pela criação da Universidade Carlos (Univerzita Karlova), a primeira da Europa Central e até hoje em funcionamento.

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Foi ideia dele também a ideia de construir a Ponte Carlos e todos os outros monumentos que levam o nome dele. Uma hora, você vai acabar passando pela Ponte Carlos, provavelmente vai cruzá-la para ir para o Castelo de Praga, outro símbolo da cidade. A ponte é ricamente decorada com 33 estátuas, cada uma com uma história particular. É um verdadeiro museu a céu aberto. Visite a ponte ao amanhecer e ao anoitecer. Além da luz desses horários favorecer a fotografia, são horas em que o lugar ainda não foi tomado por turistas e artistas de rua. A história de duas estátuas me chamou a atenção. Primeiro, o crucifixo com as inscrições em hebraico. Em cima e aos lados, lê-se kadosh (santo). As inscrições foram colocadas ali como punição depois que um judeu cuspiu perto da estátua. Ele foi condenado a pagar uma indenização, porém, sem dinheiro, coube à comunidade judaica de Praga arcar com o pagamento do letreiro. Outra estátua interessante é a do São João Nepomuceno, o padroeiro dos tchecos. Antes de ser assassinado e ter o corpo jogado no rio, ele teve a língua cortada, pois se recusou a contar para o rei Venceslau o que a rainha tinha confessado.  É a estátua de um homem que segura uma pena dourada e um crucifixo, além de ter uma auréola com estrelas douradas.

Outro personagem famoso de Praga, ainda que não tenha nascido lá, foi Jan Hus, o primeiro reformista. Antes mesmo de Martinho Lutero, Hus lutou por uma igreja mais alinhada aos valores cristãos. Morreu na fogueira após se recusar a se retratar das suas opiniões, mas os seus seguidores continuaram fiéis aos seus ensinamentos. O monumento em sua homenagem encontra-se na Praça da Cidade Velha.

Talvez o mais famoso símbolo de Praga, mais até que o castelo, seja o Relógio Astronômico. De hora em hora, multidões se aglomeram em frente a ele para ouvir as badaladas e ver o espetáculo das figuras dos apóstolos desfilando. Para você que está acostumado com o clique de um botão, o relógio pode parecer algo singelo e sem graça, mas pense que tudo aquilo foi construído em 1410, e pense na engenhosidade e complexidade de um instrumento que mostra não só a hora, mas também a posição do sol e da lua e os signos do zodíaco. O relógio é equipado com dois grandes mostradores, sendo que o de cima é um relógio astronômico e o de baixo, um calendário. Ao lado de cada mostrador, há 4 figuras representando os defeitos e as virtudes do ser humano. No mostrador de cima: vaidade, avareza, morte e prazer, este, representado por um turco tocando um instrumento musical. Por sua vez, a avareza é representada por judeu. A figura original tinha barba, mas os comunistas tchecos fizeram a a barba da estátua, pois, segundo eles, a figura era muito parecida com Marx e você sabe, ninguém ia querer associar Marx à mesquinharia. Em contrapartida, no mostrador de baixo, o filósofo, o anjo, o astrônomo e o cronista representam a sabedoria e a justiça.

Mas atenção, há relatos de batedores de carteira no local, portanto, todo cuidado é pouco.

Relógio Astronômico

Estive em Praga no dia 17 de novembro, data que marca o início da Revolução de Veludo. É uma época em que há muitas manifestações políticas nas ruas, ainda que nem sempre elas tenham sentido: tipo pessoas pedindo democracia em um país democrático! Sério, essas pessoas acham que ainda vivem em 1960? A Praça Venceslau é um lugar que costuma reunir manifestações, pois sempre foi o epicentro de movimentos estudantis. Foi ali, aos pés do Museu Nacional, que Jan Palach ateou fogo a si mesmo em protesto contra a invasão do seu país pelos soviéticos – há um memorial em frente ao museu.

Pelo menos duas vezes por dia, eu passava na frente da Casa Municipal (Obecní Dům), um templo do art nouveau. Trata-se de um teatro de concertos com dois restaurantes (Plzeňská Restaurace e Francouzská Restaurace), além de um café (Kavarna Obecní Dům). Eu passava na frente do restaurante francês e ficava pensando: tenho que comer aqui. Era mais por causa do apelo visual, eu admito. No último dia, finalmente tomei coragem.

Thiago: mesa para um, por favor.

Atendente: Senhor, estamos lotados.

Thiago: Mas está vazio!

Atendente: Estão reservados.

Cara de tacho.

A minha saída foi ir ao café. O ambiente é um exemplo clássico de art nouveau tcheco. Pedi um bolo, não tinha. Pedi outro, também não tinha. Foi então que perguntei para a mal-humorada garçonete quais eram as minhas opções. Acabei pedindo um café e uma torta de maçã com sorvete de baunilha e creme. A comida não me impressionou tanto quanto as paredes decoradas e os lustres, mas talvez seja melhor no café da manhã.

A Casa Municipal  conta ainda com um restaurante de comida tcheca (Plzeňská Restaurace), o qual ainda pretendo experimentar. Este restaurante fica no subsolo e me pareceu bem menos formal do que o francês – tipo porão do Titanic mesmo: havia música tradicional tcheca e as pessoas falavam alto e riam.

Como fã que sou de sistemas de transporte público, não pude deixar de andar no metrô de Praga para admirar as estações. As estações não têm os detalhes do metrô de Moscou, e são muito parecidas umas com as outras, mas eu gostei muito do que vi. Aliás, não só no metrô. Praga é uma cidade para amar e voltar sempre.

Thiago

Filmes para ver antes de viajar:

  • Dark Blue World (Tmavomodrý Svět): o filme conta a história de dois pilotos tchecos que fogem da Tchecoslaváquia para lutar na força aérea britânica durante a Segunda Guerra Mundial;
  • A Insustentável Leveza do ser :  Um triângulo amoroso que se desenvolve nas vésperas da Primavera de Praga;
  • Kolya (Kolja): um músico tcheco mulherengo aceita se casar com uma russa por dinheiro, sem saber  que tudo que ela queria era um visto para fugir para a Alemanha. Ele também não imaginava que teria que cuidar do filho dela. A história tem como pano de fundo os últimos dias do comunismo.