25
jun
Europa, Experimentar, Fotografar

Um lugar chamado Ilhas Faroé

Quase despercebido entre Islândia e Escócia, há um conjunto de ilhas de beleza singular que seduz os afortunados turistas que ousam desbravar os seus encantos. Pense em paredões se erguendo abruptamente no meio do oceano. Pense em isolamento. Pense em cachoeiras que despencam no mar. O nome desse lugar? Ilhas Faroé.

Bem, não é lá muito fácil chegar nas Ilhas Faroé. Se você optar pela via aérea, saiba que apenas Atlantic Airways, a companhia nacional, voa para lá. Se o mar bravio não te intimida, esta é uma opção também. Nesse caso, Smyril Line é o nome da empresa que faz o trajeto. Para melhor aproveitar o tempo, fui de avião mesmo. Um trecho curto, de 1 hora e 10 minutos a partir de Edimburgo. Uma daquelas raras exceções em que eu viajo na janela para ver a chegada.

01 Ilhas Faroé

As estradas são sempre sinuosas e exuberantes. Na maioria das vezes, vão acompanhando o contorno das ilhas, o que sempre rende uma foto de National Geographic. Eu só conseguia pensar na máxima “Errou a curva, já era”. Perguntei ao motorista se havia muitos acidentes de carro. Ele me garantiu que não e foi a isso que me apeguei naqueles momentos em que olhava para baixo e tentava imaginar a altura da queda. No caminho, me arrependi de não ter alugado um carro. Claro que o arrependimento passou quando eu paguei 92 coroas, cerca de 14 dólares, por dois croissants e um latte. Se um café da manhã simples custa isso, o que dirá encher um tanque!

02 Ilhas Faroé

Tórshavn é a capital das Ilhas Faroé. Tudo depende do referencial. Eles chamam de cidade. Eu chamaria de vila. Não tem mais de 20 mil habitantes, incluindo a zona metropolitana (uma ilha na na frente do porto e outras cidades – vilas? – ao lado). Sim, é bem pequena, mas a vantagem é que dá para percorrer tudo a pé. As casinhas coloridas dão um charme extra àquela cidade portuária. Ali e acolá, casas com telhado de grama completam a paisagem urbana. Não consigo pensar em nada mais escandinavo do que isso. As águas calmas e cristalinas do porto rendem ótimas fotos, com tempo fechado ou ensolarado.

03 Ilhas Faroé - Tórshavn

04 Ilhas Faroé - Tórshavn

05 Ilhas Faroé - Tórshavn

06 Ilhas Faroé - Tórshavn

07 Ilhas Faroé - Tórshavn

09 Ilhas Faroé - Tórshavn

11 Ilhas Faroé - Tórshavn

12 Ilhas Faroé - Tórshavn

A cidade, como não poderia deixar de ser pelo tamanho da sua população, tem um ar bem interiorano. Perto do Kaffihúsið, onde saboreei o latte, havia sempre um pescador vendendo o seu produto. Há pouca gente na rua e eu queria muito ter feito um retrato desse povo. Quando me lembro deles, sempre me vem à cabeça a simpatia da atendente da loja de CDs, que pacientemente me mostrou uma dezena de títulos de bandas do país, e a sorridente funcionária da livraria onde comprei selos.

14 Ilhas Faroé - Tórshavn

13 Ilhas Faroé - Tórshavn

Mas ainda que a capital conte com alguns museus e galerias, eu estava nas Ilhas Faroé para ver o que a Mãe Natureza havia criado. O grande atrativo das ilhas são as paisagens naturais e você terá que colocar um tênis confortável para experimentar a sensação de liberdade que o arquipélago oferece. Caminhei muito durante esses dias. Se eu fosse Frodo, teria andado até Mordor e voltado duas vezes.

O primeiro passeio que fiz foi um de barco para ver as colônias de pássaros. Estava doido para ver os puffins, mas terminei o passeio desolado por não ter visto nenhum (muitas gavotas e ovelhas, mas nenhum puffin). Nem por isso o passeio foi perda de tempo. O capitão manobra o barco habilmente entre rochedos e reentrâncias e ver as ilhas de um outro ângulo foi um ótimo início de viagem. Um prelúdio do que eu veria a seguir.

15 Ilhas Faroé - Vestmanna

16 Ilhas Faroé

17 Ilhas Faroé

18 Ilhas Faroé

19 Ilhas Faroé

No albergue, conheci um casal de ingleses muito animados. Seus cabelos grisalhos escondiam o seu espírito jovem. Quando eu disse que ia para Klaksvík, me perguntaram se eu não queria ir mais além. Topei, sem esperar muito pelo passeio. Na verdade, nem sabia o que “mais além” significava. E foi nesse dia que uma viagem da qual eu não esperava muita coisa, se tornou um dos momentos mais marcantes da viagem. Uma viagem que me levou até Fugloy, a ilha mais ao Norte daquele arquipélago.

21 Ilhas Faroé

22 Ilhas Faroé - Klaksvík

23 Ilhas Faroé - Klaksvík

Da janela do porão do barco, eu observava o mar revolto. Um olho no mar, o outro no saco de enjoo ali do lado. O estômago embrulhou feio. Pensei que fosse entregar o meu almoço para o mar. Subi até o convês e encarei o horizonte. É esse o macete para não enjoar: manter o olhar fixo na linha que divide o mar e o céu.

24 Ilhas Faroé

25 Ilhas Faroé

Em um dos lugares mais improváveis, um vilarejo encrustado no meio de uma ilha isolada de tudo, um punhado de gente insiste em viver, apesar das adversidades. População? O que cabe em umas 15 casinhas coloridas.

26 Ilhas Faroé - Flugoy

27 Ilhas Faroé - Flugoy

28 Ilhas Faroé - Flugoy

29 Ilhas Faroé - Flugoy

30 Ilhas Faroé - Flugoy

31 Ilhas Faroé

32 Ilhas Faroé

Foi impressionante ver o esforço para levar mantimentos para aquele claustro, enquanto o barco era arremessado contra a ilha. Sim, porque não há baía onde atracar e as pessoas que embarcavam ou desembarcavam tinham que cronometrar o pulo com o segundo em que o barco se aproximava da ilha. Crianças e idosos tinham que se submeter àquela provação. Eu me senti em um episódio de Pesca no Alasca. É sério. O leitor pode estar se perguntando o que tem de especial em pegar 2 ônibus e um barco para chegar até essa ilha e voltar sem sequer descer, mas aquele episódio resume para mim a resiliência humana. A vontade de vencer a natureza. É claro que seria muito mais fácil morar na cidade grande, mas aqueles faroeses tinham algum vínculo com aquele lugar, um vínculo que os fazia continuar ali apesar de tudo.

33 Ilhas Faroé

Com o apoio de Visit Faroe Islands, fui de barco até Mykenes, uma ilha famosa pelas colônias de puffins que se formam em sua encostas íngremes. Sorte a minha que o lanchinho gentilmente oferecido pelo Bureau de Turismo incluía uma garrafa de água, pois eu havia esquecido a minha garrafa térmica no albergue.

34 Ilhas Faroé

As trilhas não são marcadas, mas não há como errar. Por via das dúvidas, perguntei para uma moradora. “Siga reto e suba”. Meio desconfiando de onde deveria começar a subir, segui o conselho dela e deixei o meu instinto me guiar. Dizem que cada trecho da caminhada é feito em duas horas. Fiz em mais tempo, pois parava a cada paisagem diferente que se abria diante dos meus olhos. E parava várias vezes para contemplar a natureza em sua majestade. Puffins? Os vi aos monte. Centenas deles. Quase ao alcance da mão. Essa simpática ave com cara de papagaio, andar de pinguim e voo apressado que elege Mykines para procriar. E acostumados que estão com a presença dos humanos que vão lá para admirá-los, nem se incomodam com a nossa presença.

35 Ilhas Faroé

36 Ilhas Faroé

37 Ilhas Faroé

38 Ilhas Faroé - Mykines

39 Ilhas Faroé - Mykines

40 Ilhas Faroé - Mykines

41 Ilhas Faroé - Mykines

42 Ilhas Faroé - Mykines

43 Ilhas Faroé - Mykines

44 Ilhas Faroé - Mykines

45 Ilhas Faroé - Mykines

Na ida e na volta, é possível ver o vilarejo de Gásadalur. Eu planejava fazer a trilha que leva até esse minúsculo Éden, mas como o caminho é muito acidentado e a caminhada, de nível difícil, achei por bem não ir, uma vez que não arrumei companhia. Mas guardarei pra sempre, em minha mente, o retrato daquela paisagem idílica.

46 Ilhas Faroé - Gáldasalur

Também na companhia dos ingleses, fiz a trilha Sandur Soltuvík. Uma trilha bem suave e fácil, portanto, ótima para se aclimatar. O caminho é repleto de paisagens de tirar o fôlego.

47 Ilhas Faroé - Sandur

48 Ilhas Faroé - Sandur

49 Ilhas Faroé - Sandur

No final da trilha, uma praia de areia escura. Ali, duas âncoras lembram o naufrágio do navio britânico Principia.

50 Ilhas Faroé

51 Ilhas Faroé

E já que eles tinham me adotado, fizemos juntos uma caminhada em Nolsoy, a ilha que protege Tórshavn das tormentas do mar. A caminhada, apesar de quase que em sua maioria reta, passava por algumas áreas pantanosas, o que exigia um esforço extra. Mas no final, fomos brindados com a linda vista do farol. Ali do lado, um abrigo anti-bomba conta a história da ilha, que nem sempre foi um mar de tranquilidade.

52 Ilhas Faroé - Nólsoy

53 Ilhas Faroé - Nólsoy

54 Ilhas Faroé - Nólsoy

55 Ilhas Faroé - Nólsoy

E se sobrar tempo antes da balsa chegar, por que não andar pela pacata cidade?

56 Ilhas Faroé - Nólsoy

57 Ilhas Faroé - Nólsoy

58 Ilhas Faroé - Nólsoy

59 Ilhas Faroé - Nólsoy

Ilhas Faroé, nunca esquecerei desta aventura.

  • Natalie

    Olá! Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

  • Felipe

    Que vontade de conhecer depois de ver essas fotos!! Paisagens incríveis!

    • thiagomagalhaes

      Felipe, me chama que eu volto!

  • Pilar

    Thiago, que fotos lindas! Um olhar diferenciado. Muito legal o registro. Este em especial, do blog como um todo. Otimas dicas. Praticidade e sentimento. Da mesmo vontade de conhecer/voltar a todos esses lugares. Imagino como seria belo seu relato de uma experiencia como o Caminho de Santiago.