07
fev
América do Sul, Bater Perna

Museo del Oro

Qual é o significado de ouro para você? Riqueza? Poder? E se eu te falasse que para algumas civilizações, o ouro não representava nada mais do que simplesmente um elemento da natureza, que deveria ser ofertado para os deuses?

É preciso aproveitar ao máximo cada minuto. Pensando nisso e na nossa longa escala na Colômbia, decidimos sair do aeroporto para conhecer mais um pouquinho de Bogotá. A vantagem de viajar com a Avianca é que normalmente a escala em Bogotá é demorada. Nós tínhamos 8 horas entre a chegada e o embarque – o que, na pior das hipóteses, nos permitiria esticar as pernas no centro da cidade e comer uma oblea, uma sobremesa típica. Quando fomos a Curaçao, aproveitamos para andar pelo centro histórico. Queríamos ter ido ao Museo Del Oro, mas ele estava fechado por conta do feriado da Semana Santa. Agora era a nossa oportunidade.

O voo AV 248 chega a Bogotá às 05:30. Fizemos a imigração com toda a calma do mundo. Preenchemos o formulário de imigração e eu ainda emprestei a caneta para 3 americanos preencherem o deles. Tomamos um café no Oma e fomos até o ponto de ônibus esperar pela nossa condução. O ônibus chega ao aeroporto como K86 e muda para M86 quando vai em direção ao centro. Eu achei o sistema um pouco confuso. Primeiro, porque não havia sinalização e custamos a achar alguém que sabia dar a informação sobre qual ônibus pegar – erramos por ter presumido que seria fácil achar essa informação e não pesquisamos antes de viajar. Segundo, porque o motorista não aceita dinheiro em espécie, para passar pela catraca, somente se você tiver um cartão pré-pago. Felizmente, uma senhora se disponibilizou a passar o cartão duas vezes e nós demos o dinheiro para ela. Também não sei se o motorista nos informou direito onde descer ou se o ponto é realmente distante do museu porque  tivemos que caminhar um bocado debaixo de uma chuva fina para chegar ao museu. Não digo que foi uma epopeia, mas deveria ser mais simples. Pelo menos, eu achei que fosse.

O museu abre às 09:00 e chegamos pouco antes das 10:00, quando sai o passeio guiado. Para nossa sorte, éramos só nós e mais um casal formado por uma espanhola e um colombiano.

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A nossa guia nos levou para o terceiro andar. Uma gigantesca porta de cofre se abriu para um mundo fascinante de relíquias pré-colombianas. O ouro reluzia mais ainda com a ajuda da iluminação daquele recinto.

Nariño, Tairona, Calima, Quimbaya, Tumaco, Malagana, Cauca, Muisca e Tolima são apenas algumas das culturas cujas obras adornam o museu. A inauguração daquele espaço foi um feito extraordinário, pois é a materialização do trabalho hercúleo de pesquisadores que conseguiram reunir em um só lugar um importante acervo que, muito provavelmente, das mãos de contrabandistas, certamente teria ido parar em coleções particulares ou museus de terras distantes. Imagino que aquele acervo seja motivo de orgulho para os colombianos.

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Peitorais, braceletes, máscaras, brincos e ornamentos de nariz: a delicadeza dos trabalhos surpreende, muitas das peças são minúsculas e, mesmo assim, possuem detalhes impressionantes. Frequentemente, essas peças apresentam a forma de um animal, uma característica muito presente nas culturas pré-colombianas. Os animais eram tidos como possuidores de poderes mágicos e alguns deles eram venerados por serem a manifestação dos deuses na Terra, como o jaguar, por exemplo, que era considerado como sendo o Deus Sol transformado para caminhar entre os humanos.

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Algumas peças são a representação de animais místicos, geralmente, híbridos de animais conhecidos por nós. Para algumas figuras, é preciso um pouco de criatividade para tentar desvendar o que significam, como a figura geométrica do jaguar que só fez sentido para mim quando a guia sacou um papel com o recorte da peça e a dobrou ao meio: voilà, um jaguar estilizado.

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Além de peças de ouro, objetos feitos de argila, conchas, prata, cobre e bronze também fazem parte da coleção.

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A guia explicou que as figuras com a bochecha ligeiramente protuberante em um dos lados representam os xamãs da tribo mascando coca. Era por meio dessa cerimônia que eles alcançavam um estado alterado de consciência – e acreditavam que assim, poderiam se comunicar com os deuses.

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O poporo era uma peça importante na cerimônia de comunhão com os deuses. Poporo nada mais é do que o receptáculo no qual a cal era estocada para a cerimônia de mascar a coca. O xamã umedecia um filete e a cal era retirada para ser misturada à coca. O da foto abaixo é o mais famoso de todos. Chamado de Poporo Quimbaya, ele está para a Colômbia assim como a Porta do Sol, para a Bolívia, como a Torre Eiffel, para a França. O artefato já foi retratado em cédulas e moedas, e eu bem que tentei procurar a moeda premiada nos trocos que recebi, mas sem sucesso. A importância do Pororo Quimbaya se dá pelo fato de que foi a compra desse objeto que deu início à procura por peças pré-colombianas, mais ou menos como os espanhóis procurando pelo El Dorado.

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Posso dizer que o museu é onde a lenda do El Dorado sobrevive. Próximo à Bogotá, encontra-se o Lago Guatavita. Foi este lago que deu origem à lenda da cidade mítica de ouro que, por muito tempo, povoou a mente dos exploradores espanhóis, em uma busca incansável pela riqueza fácil. A história de um lago onde ouro e joias preciosas eram ofertadas aos deuses chegou aos ouvidos dos conquistadores europeus. Era no Guatavita que o cacique Muisca entrava em uma balsa de madeira. Coberto de pó de ouro, ele levava consigo as oferendas aos deuses, ouro e pedras preciosas que, para eles, não tinham nenhum valor econômico, apenas simbólico. Do lago os espanhóis conseguiram retirar algumas peças, mas estima-se que ainda há muita no fundo do lago. A cerimônia de oferenda está representada em outro destaque do museu: a Balsa Muisca. Mas não se espante se a peça for bem menor do que parece. De fato, as fotografias enganam e nos fazem pensar que a peça tem mais do que 20 centímetros de comprimento. Não que o tamanho diminuto seja algo que desabone a peça, pelo contrário, é a prova do trabalho meticuloso dos ourives Muiscas.

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Ao fim, entramos na Sala das Oferendas. Sentamos em volta de um círculo. As luzes se apagaram. E, de repente, somos surpreendidos com cânticos xamânicos que nos fazem sentir como convidados na cerimônia das oferendas. Desculpe-me pelo trocadilho, mas uma maneira de fechar com chave de ouro a visita a este museu.

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Museo del Oro

Carrera 6 # 15-88, Bogotá

Horário de funcionamento: Todos os dias, de 09:00 às 18:00

Entrada: $3.000,00 (gratuito aos domingos)