15
nov
Ásia

Barrados no Baile em Doha

Culpado sem ter cometido crime algum. É assim que eu me sinto em Doha, esperando a minha conexão no aeroporto, sem poder entrar no país por causa de dois carimbos no meu passaporte.

Eu sei que há uma lista de países que não permitem a entrada de turistas com passaporte que tenha visto de Israel (ou qualquer indício de que o turista tenha pisado naquela terra – como um carimbo da fronteira com o Egito, por exemplo), mas eu sempre pensei que o Qatar fosse uma nação moderna acima de qualquer desavença política. Quando comprei a minha passagem pela Qatar Aiways, nem estava nos meus planos descer para visitar nada, mas com uma conexão demorada, oras, por que não? Pensei em passear um pouco pela orla iluminada, admirar os prédios futuristas que emolduram as praias desse emirado e dormir uma noite em um hotel aconchegante – um luxo a que me dou ao direito algumas poucas vezes. E quando li que o novo aeroporto de Doha havia sido inaugurado, comemorei o fato de que iria passear por seus corredores exuberantes.

Eu fiz o meu dever de casa: pesquisei na internet, tanto em blogs como em fóruns de discussão e páginas oficiais, perguntei a amigos, mas só achava informações desencontradas. Algumas fontes diziam que as autoridades do Qatar não se importavam. Outras citavam o fato de que até recentemente, havia uma representação comercial de Israel aqui em Doha. A página da empresa aérea tampouco fazia menção a qualquer tipo de impedimento dessa ordem e basicamente se limitava a explicar que o visto deveria ser solicitado por um hotel. Entrei em contato com um hotel, mas as instruções de pedido de visto também eram silentes sobre Israel, apesar de que falava sobre alguns impedimentos (se eu fosse mulher solteira até 30 anos viajando desacompanhada, daí, sim, eu não poderia entrar).

Há até um mês da viagem, eu estava disposto a tentar entrar (me sentia o próprio imigrante clandestino que contrata um coiote para cruzar a fronteira). Mas pensei bem e, ah, me dei conta de que não estava disposto a correr o risco de ser barrado na imigração. Foi quando decidi ser direto no meu questionamento ao hotel: “olha, tem carimbo de Israel no meu passaporte. Toc, toc, posso entrar?”. A mulher bateu a porta na minha cara. Quando li a resposta da funcionária do hotel, demorou a cair a ficha. Acho que havia subestimado as chances de essa possibilidade ser verdade. Ainda considerava o Qatar uma nação progressista, uma nação cuja primeira dama desfila com desenvoltura no mundo ocidental. Pensei que um país que vai sediar um evento da envergadura da Copa não vai se ater a essas palhaçadas (foi mal, essa é a palavra mais branda que eu consigo usar para descrever a situação). Com carimbo ou não, o que eu penso não muda. E outra, ter um novo passaporte não vai mudar o fato de que eu já estive em Israel.

Enfim, estou bem indignado e decidi desabafar enquanto aguardo o meu voo para terras mais tolerantes.

Enquanto não chamam o voo 832, fiquem com algumas fotos do Hamad International Airport.

 01 - Hamad International Airport

02 - Hamad International Airport

03 - Hamad International Airport

04 - Hamad International Airport

05 - Hamad International Airport

06 - Hamad International Airport

07 - Hamad International Airport

08 - Hamad International Airport