15
set
África, Comer, Experimentar

O que fazer em um dia em Casablanca

Minaretes anunciam o horário das orações 5 vezes ao dia. Enquanto isso, pessoas caminham pelos souks lotados de temperos, ervas, tâmaras, castanhas, bugigangas Made in China, tapeçarias, sapatos do Alladin, almofadas, e muita gente, de mulheres cobertas dos pés à cabeça ou somente com um lenço para cobrir os cabelos a comerciantes que não se cansam de assediar turistas em qualquer idioma. Basta não estar vestido a caráter que eles são capazes de traçar a sua origem – mesmo que de antecedentes muito distantes, em questões de segundos. “Italy? Bongiorno! Ciao! No Italy? Spain? Amigo, Buenos días! Los mejores precios!”. No começo parece difícil de resistir. No final, parece impossível passar despercebido. Uma mistura excêntrica de aromas e sensações.

Casablanca - Medina

Este é o dia a dia de uma Medina, a cidade antiga dentro das cidades do Marrocos. Rabat, Casablanca, Marrakech, cada uma tem a sua, com características próprias.

Casablanca

Casablanca

Minha viagem ao Marrocos começou em Casablanca, em uma imersão suave à cultura local. Aqui optei em ficar em um hotel próximo à estação de trem, dado que minha estada não passaria de uma noite. De fato não há muito que se fazer em Casablanca, e não teimei quando li em todos os lugares que um dia era mais do que suficiente para visitar seus principais pontos turísticos. Aqui, um destaque a segunda maior mesquita do mundo, a Hassan II, ostentando um minarete de 210 metros, a mesquita foi construída quase que no mar com lindíssimos arabescos e mosaicos. Não foi ao acaso: ao ser vista de longe, a impressão que temos é que a mesquita está de fato no mar, em uma analogia a um versículo do Corão que diz “O trono de Deus encontra-se sobre a água”. Além disto, está é a única mesquita no Marrocos aberta a visitação de não muçulmanos.

Casablanca - Hassan II

Casablanca - Hassan II

Casablanca - Hassan II

Casablanca - Hassan II

Casablanca - Hassan II

Casablanca - Hassan II

Casablanca - Hassan II

Uma volta na Medina – enorme se pela primeira vez, minúscula se comparada com outras cidades – e uma caminhada pelas ruas de prédios brancos parados no tempo, ao redor da Mohamed 5 (ou como eu entendi pela primeira vez que um marroquino me falou o: Marron 5). Vale a pena se sentar em algum café para apreciar uma Paris marroquina de hábitos franceses como se sentar de frente para a rua e, de narguilé, apreciar o movimento da cidade. Bom, isto não se aplica a mulheres, já que não se espera de uma donzela fumar ou beber em público.

Casablanca

Casablanca - Mohammed V

Casablanca - Medina

Casablanca - Medina

Casablanca - Medina

Em Casablanca não deixe de ir ao Rick´s Café. Casablanca não foi o meu filme favorito. Assisti com muita expectativa o clássico dos anos 40 e confesso que não senti nenhuma emoção na imortalizada frase do Humphrey Bogart “haverá sempre Paris” e no drama da Ingrid Bergman em seguir em frente sua vida ou reviver a grande paixão do passado. Mas, mesmo assim, me emocionei ao entrar no Rick´s, mantido exatamente como no filme. “Play it again, Sam”. O pianista marroquino de nome, Issam, acabou ganhando um nome mais americanizado (pronuncia-se I, do inglês, e Sam, em um feliz trocadilho com o nome do pianista no filme), mantém a atmosfera intimista e não deixa passar em branco “you must remember this… a kiss is just a kiss… a sigh is just s siiiigh…”. Confesso, uma lágrima caiu. Aquela coisa de se sentir parte da história, do filme e da emoção mexeu comigo. Tomar vinho marroquino, comer um delicioso tajine de cordeiro depois de uma entradinha de amêndoas e mel e estar ali, ao lado de tantos estrangeiros não era à toa. Este não era só um lugar turístico repleto de gringos. Era um reduto de expatriados de todos os cantos, jantando calmamente enquanto o pau quebrava lá fora. Não há como negar: a entrada do Rick´s Café é um portal mágico, um armário de Nárnia, a rua onde Marty McFly e o cientista Dr. Brown aceleravam ao máximo seu DeLorean para voltar ao tempo em De Volta para o Futuro.

Casablanca - Rick´s Café

Casablanca - Rick´s Café

Casablanca - Rick´s Café

Casablanca - Rick´s Café

Ahh, que delícia. A primeira refeição no Marrocos marcou o início da viagem com o pé direito – pensei. Chá de hortelã, servido do alto, mirando a água escaldante na pequena xicarazinha cheia de folhas frescas da menta, a conta – mais cara que o normal mas, poxa, é o Rick´s! – e hora de ir embora. Agora, deixe-me ir ao toalete antes de irmos embora e… Ops, que folder é esse? Em 2014 o Rick´s Café comemora 10 anos de existência? Mas, como assim?  Mais uma confissão: um choque, uma decepção. Foi tudo lindo, e a culpa foi minha de não ter descoberto que de fato o Rick´s Café nunca existiu, e não se passava de um set de filmagem de Hollywood. Graças a uma americana fã do filme o café ganhou vida em Casablanca, e é atraído por uma imensidão de fãs que buscam reviver cenas do filme – e não-fãs como eu, que revivem a cena sentindo a falsa emoção na cópia fiel do café-palco do filme. Tirando este detalhe, esta decepção que só pertence a mim, a experiência foi fantástica. Foi impecável. E merece o Oscar que ganhou. E, de volta a realidade, passando novamente pelo portal mágico, hora de lidar com os inescrupulosos taxistas que tentam te extorquir e se aproveitam do seu analfabetismo árabe para zoar com a sua cara. “A sigh is just a sigh…”. Fiel ao filme somente o fato de o pau estar quebrando lá fora. As Time Goes By…

 Casablanca - Rick´s Café

Casablanca - Rick´s Café

Casablanca Hassan Mosque

  • Camila Teles

    Consegui visualizar sua cara de decepção!!! Mas valeu o mágico momento onde você achou que estava revivendo cenas do filme.. rs

  • Marcello Rolim Coelho

    Excelente artigo, Thaísa! Senti-me lá!