01
jul
Ásia, Experimentar

Hebron: cidade dividida

Alguns textos são fáceis de escrever. Outros, nem tanto. Eu queria escrever sobre Hebron sem falar sobre política (afinal de contas, esse é um blog sobre turismo), mas como? Hebron não está na lista de destinos das pessoas por ser um lugar turístico, um lugar aonde você vai para relaxar e passear com a família. Ou o seu interesse é espiritual, ou você vai porque, assim como eu, quer tentar entender um pouco do que se passa ali e, por tabela, em Israel. Foi por isso que eu fui. Foi justamente por isso que contratei um passeio chamado Dual Narrative Tour, um passeio cujo chamariz era justamente oferecer a oportunidade única de ouvir as duas versões da história. A primeira metade do passeio seria feita por um guia judeu e a segunda metade, por um palestino.

Eliahu, o nosso guia, estava pontualmente na recepção do albergue. Eliahu é americano, mas havia emigrado há dez anos. A barba, as longas costeletas e o kipá não deixavam dúvida sobre a identidade dele. Eliahu fez uma chamada e assim que todos os nomes tinham um rosto, ele deu uma breve explicação sobre o passeio, sobre o que veríamos e sobre como ele começou a trabalhar como guia turístico. Mas não só como guia turístico, guia turístico em Hebron. Eliahu trabalha em uma organização cuja finalidade é criar uma ponte entre palestinos e israelenses e duas vezes por semana oferece a turistas a chance de ver um destino que não está na agenda de muitos.

Até então, era um passeio como outro qualquer. Fomos até a parada do VLT e compramos um bilhete para ir até a rodoviária. A distância entre o albergue e a rodoviária é curta, o trajeto poderia ter sido feito a pé, mas talvez tenha sido melhor de transporte público, pois teria sido difícil dar conta de um grupo tão grande como o nosso, cerca de 15 pessoas entre americanos, alemães, duas cingapurenses e o latino americano que escreve este texto. Da rodoviária, pegamos o ônibus que iria nos levar a Hebron. Era um ônibus diferente dos demais, com uma aparência meio militar, apesar de ser um ônibus de linha normal. O ônibus saiu da rodoviária e a primeira coisa que eu pensei para não enxergar direito o lado de fora foi o fato de termos saído da garagem escura direto para a luz do dia. Porém, continuávamos andando por Jerusalém e a visão continuava meio turva. Pensei: “esses vidros estão sujos”, mas depois, me dei conta de que o ônibus era blindado e que mal dava para ver pela janela por causa da espessura do vidro. Foi nesse momento que percebi que eu não estava indo para um lugar comum.

Chegamos a Hebron depois de algumas paradas. Como eu disse, é uma linha normal de ônibus e algumas vezes, parávamos para pegar passageiros no caminho, colonos judeus que optaram por morar em uma cidade militarizada, cheia de barreiras, controles de segurança e arame farpado. Descemos em frente a um posto do exército, onde tivemos a primeira explicação sobre Hebron, ou Al Khalil, como os palestinos a chamam.

01 - Hebron

Hebron é disputada por ser o local onde judeus e muçulmanos acreditam que Abraão está enterrado. Como Abraão é considerado o patriarca das duas religiões, a cidade é um dos pontos de discórdia em qualquer negociação e não raramente aparece nos noticiários por conta de novas colônias que estão sendo construídas. Representada pelo elemento Terra, Hebron é a segunda cidade mais sagrada para os judeus[1]. Terra por causa da terra onde estão enterrados os patriarcas e as matriarcas do judaísmo (além de Abraão e Sara, também Isaque, Jacó, Rebeca e Lea). Segundo a crença, Abraão comprou a caverna por 400 moedas de prata, bem mais do que o local valia, para enterrar a esposa que acabara de falecer.

02 - Hebron

Além de significar um elo com o judaísmo, o local ainda é descrito pela cabala como sendo a entrada para o Jardim do Éden. Herodes mandou construir um muro em volta da caverna e durante o domínio bizantino, o lugar foi transformado em uma basílica. A chegada dos persas significou a destruição da basílica e somente com a chegada dos muçulmanos em 638 foi que o prédio foi reerguido, desta vez, como mesquita. Os Cruzados tomaram o prédio e construíram muito da estrutura que se vê hoje. Porém, foi o imperador Saladino que conferiu ao prédio os traços marcantes da arquitetura islâmica, inclusive os minaretes que adornam as paredes externas e o belíssimo trabalho de caligrafia de dentro da mesquita. Durante muito tempo, os judeus foram impedidos de entrar no templo, o que só mudou com a vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias (1967). Até então, o máximo que eles podiam chegar perto do local era o sétimo degrau de uma escada lateral que levava até a entrada leste, escada que por ser considerada um símbolo de humilhação, foi destruída em 1967 pelo exército israelense. Foi nessa época que o movimento dos assentamentos ganhou força e judeus começaram a chegar com mais intensidade para repovoar a cidade. Apesar das proibições de que judeus entrassem no templo, judeus e palestinos viviam em relativa harmonia até 1929, quando um massacre ceifou a vida de 67 israelitas – a chacina foi desencadeada por rumores de que os judeus estavam matando muçulmanos em Jerusalém. Mas como o nosso guia Eliahu fez questão de frisar, a situação de harmonia era tamanha que muitas famílias palestinas acabaram escondendo e protegendo famílias judias. Os que sobreviveram não se sentiam protegidos pela Autoridade Britânica, à época, responsável pela administração do território, e acabaram deixando a cidade, a qual só puderam retornar em 1967. Em 1987, houve a Intifada e os Acordos de Paz de Oslo resultaram no protocolo assinado em 1997 que definiu as atuais fronteiras da cidade: H1 (80% da cidade = controle palestino) e H2 (20% da cidade = controle de Israel).

03 - Túmulo dos Patriarcas Hebron

04 - Túmulo dos Patriarcas Hebron

05 - Túmulo dos Patriarcas Hebron

E enquanto caminhávamos em direção ao Túmulo dos Patriarcas, notei as “palmeiras” de Hebron. Ri comigo mesmo e duvido que alguém tenha entendido.

06 - Hebron

Hoje, o Túmulo dos Patriarcas é uma sinagoga e uma mesquita ao mesmo tempo. Seria bonito dizer que é um símbolo de união e coexistência, mas a verdade é que há uma clara distinção entre os espaços e judeus não podem entrar na mesquita (salvo durante dez dias ao ano) e muçulmanos não podem entrar na sinagoga. Claro, não há ninguém conferindo documentos naquele ponto e eu acho que isso é uma medida para inglês ver.

07 - Cenotáfio Túmulo dos Patriarcas

08  - Túmulo dos Patriarcas Hebron

09 - Cenotáfio Sara Túmulo dos Patriarcas Hebron

10 - Sinagoga Túmulo dos Patriarcas Hebron

11 - Sinagoga Túmulo dos Patriarcas Hebron

O passeio ainda compreendeu uma visita à sinagoga Avraham Avinu, cuja construção por judeus expulsos da Espanha no período da Inquisição data de 1540. O êxodo que se seguiu ao massacre de 1929 significou um triste capítulo da história da sinagoga, transformada pelos jordanianos em estábulo e banheiro público. O retorno da população judaica garantiu a restauração da sinagoga e a volta dos rolos da Torá.

12 - Sinagoga Avraham Avinu Hebron

13 - Sinagoga Avraham Avinu Hebron

Quando em 1994, o radical israelense Baruch Goldstein matou 29 muçulmanos na Mesquita Ibrahimi, o exército israelense, com medo de retaliações, ordenou a interdição de uma das principais ruas de comércio de Hebron: a Rua Shuhada, ou Rua dos Mártires. Os israelenses a chamam de Rua Rei David, mas eu não vi nenhuma placa indicando qualquer nome. Primeiro, a rua foi interditada somente para carros, mas as medidas foram reforçadas depois de um frustrado ataque suicida palestino. Mais emblemático do que qualquer muro, a rua deserta foi, para mim, o símbolo mais triste daquela divisão.

14 - Hebron

15 - Hebron

16 - Shuhada Street Hebron

17 - Shuhada Street Hebron

18 - Shuhada Street Hebron

19 - Hebron

20 - Hebron

21 - Hebron

Eu assisti a um documentário sobre Hebron e é o lugar mais tenso para os soldados servirem. Apesar disso, todos os soldados nos recebiam com sorrisos e posavam para fotos – algo extremamente diferente do que acontece normalmente em outros lugares.

22 - Soldado Exército Israel

23 - Soldado Exército Israel

24 - Soldado Exército Israel

25 - Soldado Exército Israel

Por volta de 12:30, Eliahu se despediu de nós e apontou o caminho para onde deveríamos seguir para encontrar Mohamed, o nosso guia. Eliahu não poderia seguir a partir daquele ponto. Almoçamos em uma casa palestina, uma casa em forma de U com um pátio agradável. Mohamed disse que no calor escaldante do verão, é comum dormir ali fora vendo as estrelas. Olhei pra cima e tentei ver o que não se vê com a grade que cobre o pátio.

26 - Hebron

27 - Hebron

28 - Criança palestina

Foi então que fomos para a parte palestina. Eu estava muito empolgado para ver o que estava atrás dos postos de controle. Passamos por um detector de metal e chegamos à H1, a área controlada pela Autoridade Palestina. Logo que a gente atravessa o posto de controle, a primeira impressão que se tem não é das melhores: há lixo por todos os cantos, lixo que os moradores jogam no posto de controle como forma de protesto. Mas ao continuar andando, percebo que é como uma cidade carente qualquer: caótica, barulhenta, improvisada e negligenciada. A nossa presença ali despertava a curiosidade dos palestinos assim como nós estávamos curiosos com eles. Passamos no meio de uma grande feira onde se vendia de tudo e fomos abordados constantemente para comprar alguma coisa.

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33 - Hebron

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35 - Hebron

O nosso guia não estava muito preocupado em nos dar explicações, apenas nos guiava por entre as ruas de H1 e se limitava a dizer que em Hebron, tudo era mais barato de que em Jerusalém. Em certo momento, Mohamed nos convidou a entrar na casa de um senhor para ouvir a história dele. Subimos uma escada íngreme e chegamos a uma casa que consistia de três cômodos bem amplos: um quarto, uma cozinha e uma sala. O banheiro provavelmente deveria ser atrás da cozinha na porta que estava fechada. O senhor nos contou que levou um tiro do Exército de Israel e hoje sobrevivia vendendo keffieh, o famoso lenço xadrez palestino, e bolsas que a mulher fazia. Conversa vai, conversa vem, um do nosso grupo notou a foto do Saddam Hussein pendurada na entrada da sala e fez a pergunta cuja resposta era óbvia: Aquele é Saddam Hussein? Mohamed confirmou e começou a elogiar Saddam – para espanto de todos. Fui obrigado a interromper: Mohamed, você acabou de criticar o Abbas por estar no poder há dois anos sem eleição e você acaba de elogiar um ditador que não só cometeu várias atrocidades, mas que ficou no poder mais de 20 anos?! E foi então que Mohamed explicou que Saddam sempre foi um benfeitor para os palestinos, chegando a pagar os estudos de muitos. Nós nos entreolhamos e, em silêncio, concordamos que não haveria sentido em discutir. A verdade é que para nós, a experiência morreu ali, pois não só o nosso guia estava mais interessado em nos levar a lojas (como os famigerados motoristas de tuk tuk, em Bangkok), mas empurrar goela abaixo histórias pouco factíveis como a da cobra no vidro de formol que “havia sido jogada pelo Exército de Israel na casa do nosso anfitrião para matar os filhos dele”.

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Antes da última parada, mais lojas.

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38 - Hebron

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40 - Hebron

41 - Hebron

Por fim, a Mesquita no Túmulo dos Patriarcas. Mais uma vez, nenhuma explicação sobre História, sobre religião, nada, apenas uma visita vazia onde ele se limitou a apontar para a abertura selada que leva para a caverna onde Abraão, Sara e seus filhos e noras estariam enterrados. Interessante? Foi, pois eu não sei se teria ido lá sem um guia, mas foi frustrante por não ter recebido a mesma carga de informação da primeira parte do passeio.

42 - Mesquita Ibrahimi Hebron

43 - Cenotáfio Abraão Mesquita Ibrahimi Hebron

44 - Mesquita Ibrahimi Hebron

45 - Mesquita Ibrahimi Hebron

46 - Mesquita Ibrahimi Hebron

47 - Hebron

48 - Mesquita Ibrahimi Hebron

49 - Mesquita Ibrahimi Hebron

50 - Mesquita Ibrahimi Hebron

Eliahu estava nos esperando na saída. Ainda tínhamos alguns minutos e aproveitei para entrar em uma loja para comprar um jarro do famoso vidro de Hebron (conhecido por um azul intenso lindo), mas acabei colocando o vaso de volta na prateleira – do que me arrependo até hoje. Andamos até a parada de ônibus e seguimos para Jerusalém. No caminho, fui pensando sobre tudo aquilo que eu tinha visto e concluí que estou longe de entender tudo.

Informações práticas:

Quem faz: Abraham Tour

Quanto custa: 290 shekels

Quando: domingo e quarta-feira


[1] As outras cidades são: Jerusalém (Fogo), Sfat (Ar) e Tiberíades (Água)