17
jun
Ásia, Bater Perna, Experimentar, Fotografar

Algumas coisas que eu gosto em Jerusalém (e outras que nem tanto)

Voltar a um lugar nos permite ver as coisas sob uma nova perspectiva, não importa se por conta de um estado de espírito diferente ou da companhia. A verdade é que apesar da minha vontade louca de descobrir novos lugares, sempre bate uma vontade de voltar àqueles que me marcaram. É um texto meramente exemplificativo, não taxativo, tendo em vista uma estadia de 3 semanas em Jerusalém. Certamente, teria muito mais a acrescentar à lista caso ficasse mais tempo na Cidade de Ouro.

1. O sentimento de pertencer das pessoas.

Eu achei que isso fosse uma impressão de primeira viagem. Sempre ouvi dizer que Jerusalém tinha uma aura diferente e quando estive lá em 2012, pensei que as minhas conclusões sobre a cidade tivessem sido consequências dos comentários repetidos à exaustão por diferentes pessoas. Fato é que tendemos a tomar como verdade as impressões de outras pessoas e eu saí de lá achando que o pouco tempo em Jerusalém tinha tido esse efeito em mim. Além do mais, quando chegamos a um lugar pela primeira vez, tudo é novidade e tendemos não só a nos deslumbramos com aquele mundo novo, mas também a ver com olhos de turista ao invés de olhos críticos. Por isso, acho importante voltar. Voltar nos permite reavaliar o que sentimos e pensamos – e não raro, confirmar, como no caso, de Jerusalém. O caráter sagrado da cidade é algo que ficou ainda mais evidente para mim nessa segunda visita à Terra Santa. Não importa se judeu, muçulmano ou cristão, certamente haverá um motivo para se identificar com alguma coisa em Jerusalém. A devoção das pessoas cria uma atmosfera única que é difícil descrever em palavras, é preciso sentir. É preciso participar do dia a dia da cidade.

Enxames de cristãos vão a Jerusalém para fazer os mesmos caminhos que Jesus, cristãos de todas as denominações: ortodoxos, romanos, coptas, evangélicos, etc. Cada um à sua própria maneira expressa a sua crença: há aqueles que carregam cruzes, há aqueles que se emocionam ao entrar na Igreja do Santo Sepulcro, há ainda aqueles que esfregam um pedaço de tecido no local onde se acredita Jesus tenha sido colocado após a crucificação. E sem contar as caravanas de peregrinos entoando canções em línguas diversas – uma melodia que fica na cabeça por dias. Ver aquelas pessoas tocadas por estarem ali realmente emociona e te faz pensar nos assuntos espirituais.

01 - Cristão Copta

02 - Igreja do Santo Sepulcro

03 - Igreja do Santo Sepulcro

04 - Igreja do Santo Sepulcro

05 - Igreja do Santo Sepulcro

06 - Igreja do Santo Sepulcro

07 - Igreja do Santo Sepulcro

08 - Cristãos Jerusalém

Judeus se reúnem diariamente no Muro das Lamentações para rezar no local mais perto de onde a Arca da Aliança um dia repousou, mas nada se compara à sexta-feira, quando a alegria de estarem ali pode ser escutada de longe. É algo contagiante. As ruelas da Cidade Velha são um labirinto, mas no shabat, o dia sagrado para os judeus, é fácil saber aonde ir, basta seguir os homens de casaco preto e as mulheres elegantemente vestidas para a ocasião. Mas nem pense em chegar perto do Muro, pois ele está tomado de fieis cantando, dançando e rezando.

09 - Judeus no Muro das Lamentações

10 - Judeus no Muro das Lamentações

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12 - Judeus no Muro das Lamentações

13 - Judeu no Muro das Lamentações

14 - Judeu no Muro das Lamentações

15 - Judeus Ortodoxos

16 - Judeus no Muro das Lamentações

17 - Judeus no Muro das Lamentações

18 - Judeus no Muro das Lamentações

19 - Judeus no Muro das Lamentações

20 - Judeus no Muro das Lamentações

21 - Judeus no Muro das Lamentações

Uma das coisas que eu mais gosto na cidade é o som das mesquitas chamando muçulmanos a rezar, cinco vezes ao dia, religiosamente. É quase como a trilha sonora da cidade, uma melodia que se espalha pelos cantos da cidade.

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2. A tranquilidade do shabat

Também adoro o fato de que a cidade pára quase que completamente no shabat. O shabat começa na sexta-feira poucos minutos antes de o sol se por e termina no sábado quando as três primeiras estrelas podem ser avistadas. Em termos de dia de descanso, o shabat é o nosso equivalente ao sábado e domingo e de certa forma, é assim que ele é encarado no restante de Israel. Em Jerusalém é diferente. Lá, o caráter religioso do dia é mais óbvio, notadamente pelo fato de que proporcionalmente, há muitos mais ortodoxos em Jerusalém do que em outras partes do país.

Do ponto turístico, é uma pena, pois é praticamente um dia perdido (calma, em outro texto eu prometo contar uma atração que fica aberta), mas coloque-se no lugar de um hierosolimita e pense em como é bom ter um dia no qual você é obrigado a desacelerar de verdade. Um dia no qual não há barulho que não o da natureza, um dia para passar com a família e no qual os estresses do dia a dia não têm vez. É quase um convite à meditação. Andando nas ruas desertas, eu via pouquíssimas pessoas, muitas das quais, turistas como eu que estavam ali temporariamente.

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3. O VLT (Veículo Leve sob Trilho).

Tudo bem que o VLT consiste de apenas uma única linha, mas é um meio de transporte tão eficiente, não poluente e moderno que eu preciso fazer uma menção honrosa – sem contar que o barulho do seu sino é uma música para os meus ouvidos. Os três pontos de interesse que podem ser visitados com o VLT são o Yad Vashem (Museu do Holocausto), a Cidade Velha e a rodoviária (não exatamente um ponto turístico, mas se você viajar de ônibus em Israel, é bom saber uma das opções de como chegar até a rodoviária), mas dependendo de onde você se hospedar, a verdade é que talvez você nem precise embarcar no VLT – o Abraham Hostel, por exemplo, fica a uma distância de 15 minutos a pé da Cidade Velha e 10 minutos da rodoviária.

Os bilhetes podem ser comprados individualmente (NIS 6,90) ou você pode comprar um cartão Rav Kav por NIS 5,00 e recarregar usando o cartão de crédito nas estações de VLT – 10 bilhetes saem por NIS 55,20. Os bilhetes individuais são válidos apenas no VLT, mas o cartão Rav Kav também dá direito a andar de ônibus. Eu só digo uma coisa: toda cidade grande deveria ter um transporte público como esse.

Ainda não foi dessa vez que eu consegui ir a uma das pontas do VLT: a estação Heil Ha-Avir, na parte árabe de Jerusalém, mas com certeza, em outra oportunidade.

25 - Mapa VLT Jerusalém

26 - VLT Jerusalém

27 - VLT Jerusalém

Coisas que eu não gosto – e aqui cabe um esclarecimento.  Viagens são feitas de percepções, frutos da nossa vivência, e expectativas baseadas no nosso imaginário. Ainda que nós amemos um lugar, certamente haverá algo que gostaríamos de mudar. Não seria diferente em Jerusalém, mas que fique bem claro que mesmo com a parte negativa, Jerusalém é uma cidade que me cativou e que eu tenho guardada em um lugar muito especial – eu não teria voltado lá se não tivesse gostado, não é mesmo?

Então, vamos à lista:

A rispidez de algumas pessoas. Jerusalém consegue ser meio intimidadora às vezes, mesmo que silenciosamente. Eu nunca vou me esquecer de quando o ônibus vindo de Eilat teve que parar em um local distante da rodoviária por causa de protestos dos ortodoxos contra o alistamento militar obrigatório. A linha do VLT era o meu referencial para chegar ao albergue só que estando longe da rodoviária, eu primeiro precisava achar os trilhos do VLT. Eu me deixei guiar pelo Google Maps, mas acabei no coração da manifestação. Tinha escurecido há pouco, eu estava perdido e, como se não bastasse, eu estava usando uma camisa polo rosa. Um estranho no ninho! Eu não parava de pensar no programa Brasileiros no Exterior no qual um brasileiro é hostilizado muito provavelmente por usar camisa rosa. Acho que foi o momento mais tenso da viagem. Jerusalém às vezes é meio intimidadora assim. Quem já foi à Ásia sabe que não raramente quando as pessoas veem que você está tirando uma foto delas, elas sorriem e posam. Eu prefiro as fotos naturais, mas em consideração àquele ato de boa vontade, sempre acabo apertando o botão da câmera e retribuo com um sorriso e um obrigado. Em compensação, em Jerusalém, um menino quase bateu na minha câmera quando viu que eu ia tirar foto do grupo dele jogando futebol e assim, tirar fotos vai se tornando uma espécie de desafio onde a habilidade de tirar uma foto bem enquadrada rápida é posta em prática com frequência. Quando eu mencionei que ia ao Muro das Lamentações durante o shabat fui aconselhado a não tirar fotos. “Eles não gostam”. Não obedeci, mas enquanto selecionava as fotos para este texto, não parava de pensar “esta foto teria saído boa se não estivesse tremida”.

E claro, tem também as vezes em que alguém vai ser muito grosso com você (e não me refiro aos oficiais da imigração, treinados especialmente para isso). Não é a regra, mas acontece mais do que em certos países.

Por fim, o trânsito. Roma e Nova Déli sempre foram sinônimos de confusão e barulho para mim. Nunca estive em nenhuma das duas cidades, mas sabe como é, elas têm a fama e deitaram na cama. Após 17 dias em Jerusalém começo a achar que nenhuma das duas pode ser pior do que Jerusalém. É tudo estressante no trânsito. Ao menor sinal de que o sinal vai abrir, os motoristas já começam a buzinar e a reação em cadeia é inevitável: mais buzinas para aquele motorista que não avançou o sinal. Acho que talvez por isso mesmo, eu apreciei ainda mais o silencioso shabat.