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Bater Perna, Europa

Budapeste em linhas gerais – Parte II

Para chegar ao Castle District, você vai cruzar a Ponte das Correntes, a ponte mais velha da cidade. Construída em 1849 para ligar os dois lados da cidade, a ponte foi destruída pelos nazistas, que se isolaram na parte Buda da cidade, enquanto o Exército Vermelho ficou na outra margem – e os dois exércitos se atacando mutuamente até a derrota e retirada dos nazistas. Cem anos depois, propositadamente para coincidir com o aniversário da ponte, os trabalhos de reconstrução terminaram e a ponte foi reaberta, voltando a ligar o Danúbio. Dois leões em cada margem dão as boas-vindas a pedestres e veículos. 

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Buda Hill ainda guarda algumas surpresas. Além de ser uma das partes mais bem conservadas de Budapeste (deixe que o seu instinto te leve por aquelas ruelas), há um vasto labirinto de cavernas embaixo da colina, produto de um longo processo de desmineralização do calcário causado pelas águas termais. Infelizmente, o Labirinto de Budapeste está fechado permanentemente por motivos que os próprios húngaros desconhecem, mas é possível visitar uma atração mais interessante ainda. As cavernas foram usadas durante muito tempo para diversos propósitos: armazenar comida e até mesmo como prisão – um tal Conde Țepeș foi o mais ilustre prisioneiro e se o nome não é familiar para você, a alcunha com certeza é, pois Drácula é como ele ficou conhecido. Em 1931, o prefeito de Budapeste pediu que um renomado geólogo explorasse as cavernas e durante a Segunda Guerra, um hospital de guerra foi montado ali. Posteriormente, com a ameaça de uma hecatombe nuclear, os comunistas aproveitaram as instalações do antigo hospital e secretamente construíram um bunker nuclear, adicionando um sistema de ventilação com filtros. E você pode visitar essas instalações.

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No início do passeio no Hospital in the Rock, assistimos a um vídeo de 5 minutos que conta a história do lugar. Depois, passeamos por corredores claustrofóbicos de um hospital em forma de labirinto. Os túneis já estavam lá, os húngaros apenas adaptaram o local reforçando as paredes e adicionando um sistema de ventilação. Cada ambiente foi bem projetado para otimizar ao máximo o espaço limitado: há uma cozinha, dormitórios para os funcionários, uma sala de operação e uma enfermaria. Aliás, devido ao caráter secreto do lugar, um dos cômodos do hospital foi usado como base do governo fascista húngaro. Bonecos de cera e equipamentos originais da época – gaze, bisturis, macas, um aparelho de raio-x – recriam o dia a dia do hospital, que foi projetado para receber 60 pessoas, mas chegou a receber 2000. Os húngaros não eram os únicos pacientes. Uma vez que o governo da época se alinhou com o lado errado, o hospital também atendia nazistas. Após a Segunda Guerra, os comunistas aproveitaram o lugar e um verdadeiro exército foi mobilizado para adaptar o hospital e transformá-lo em um bunker nuclear. O Hospital in the Rock tem uma atmosfera única e é um daqueles lugares que vão te fazer voltar no tempo.

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Mas você só vai colocar uma foto externa do local, Thiago? Infelizmente, é tudo o que eu tenho. A seguinte conversa aconteceu no início do passeio quando eu ameacei sacar a máquina fotográfica:

Guia: Senhor, não é permitido tirar foto.

Thiago: Por que?

Guia: Para não atrasar o passeio. Imagine se a gente parasse cada vez que alguém quisesse tirar uma foto.

Thiago: Só tem eu. (Um casal se juntou ao passeio logo depois, mas no momento da conversa, eu era o único).

Guia: Senhor, não pode tirar foto.

E não adiantou eu explicar que eu tinha um blog e que adoraria falar sobre aquela atração e ilustrar o relato com fotos. Prevaleceu a boa e velha intransigência, muito provavelmente resquício de anos e anos de obediência sem questionamento. No final, ela ainda veio me falar que alguém um dia publicou fotos dali como sendo de outro lugar e por isso, a gerência proibiu fotos, mas eu achei uma desculpa bem esfarrapada. De qualquer forma, se você procurar no Google, há várias fotos.

Da colina do castelo que não é castelo, você vai ter uma das melhores vistas da cidade e a melhor vista do Parlamento. A visita guiada ao Parlamento é obrigatória (lá vou eu com o obrigatório, de novo) não tanto pelas explicações da guia, que se concentraram mais na parte da curiosidade do que propriamente da História (é claro que eu não guardei o número de tijolos que foram usados para erguer o prédio), mas pela possibilidade de ver a coroa, o cetro e a espada dos reis húngaros. Ninguém sabe ao certo o porquê de a cruz da coroa ser torta, mas tudo indica que a coroa tenha sofrido uma queda e, bem, nunca foi consertada.  Após a Segunda Guerra, o receio de que a coroa caísse nas mãos erradas fez com que os húngaros a confiassem aos americanos para que eles a guardassem até que fosse seguro. E foi assim que a coroa foi parar no Forte Knox, nos Estados Unidos, até 1978, quando foi devolvida aos verdadeiros donos pelo Presidente Jimmy Carter.

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Infelizmente, é proibido tirar fotos dos objetos reais e do aposento onde eles se encontram, este último também uma verdadeira joia neo-gótica. Você também não odeia quando não pode tirar foto? Eu teria quebrado a regra se não fosse pelos guardas e suas baionetas – meio intimidador, convenhamos. Olhe para cima e admire o domo verde e dourado do aposento que abriga a coroa. Repare nas estátuas que 24 horas por dia guardam e admiram aquele tesouro.

Um número eu decorei: a altura do prédio. O Parlamento mede exatos 96 metros, que é uma referência ao ano 896, ano da fundação da Hungria. Aliás, é a mesma altura da Igreja de São Estevão, uma simbologia de que Igreja e Estado andam de mãos dadas e tem a mesma importância. A construção da igreja demorou 50 anos e por isso mesmo ela tem vários estilos arquitetônicos: neoclássico (o triângulo da fachada frontal), neo-barroco (interior), neo-renascença (janelas).

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Na entrada da igreja, a inscrição Ego sum via veritas et vita (Eu sou o caminho, a verdade e a vida). Dentro do templo, uma relíquia: a mão mumificada do Santo Estevão. Santo Estevão, à época, rei da Hungria, unificou o país em torno do cristianismo, em parte, uma das razões da sobrevivência dos húngaros. A admiração pelo monarca foi crescendo com o tempo e milagres foram creditados a ele após a sua morte. Quando exumaram o corpo dele, perceberam que o braço direito estava mumificado. A mão foi então guardada em um receptáculo e peregrinou por vários lugares, sempre fugindo dos perigos dos conquistadores, até chegar ao atual lugar. Leve uma moedinha de 200 florins para acender a luz que permite ver a mão com mais detalhe. Ou, se estiver sem trocado, espere até outro turista chegar.

  • Paulo da Silva Magalhães

    Gostei muito! Um excelente passeio pela história de um pais, que se tiver oportunidade visitarei!