09
dez
Bater Perna, Europa

Budapeste em linhas gerais – Parte I

Eu não vou falar que Budapeste foi uma surpresa, pois eu já esperava me apaixonar. Sabe aquela sensação de andar pelas ruas e não se sentir apenas um turista? Os húngaros são simpáticos e a cidade tem muita personalidade, além de ser repleta de edifícios belíssimos, muitos dos quais em estilo Art Nouveau. Prédios projetados por arquitetos que estavam à frente de seu tempo, como Ödön Lechner, Béla Lajta e Sándor Löffler.

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Porém muitas vezes é necessário olhar com mais atenção, pois alguns imóveis ainda estão cobertos pela poeira do descaso. Sim, muitos anos sem manutenção e alguns deles precisam de reparos urgentemente. Na Rua Dohány, por exemplo, há um albergue chamado Bazar Hostel. A fachada da frente dele foi limpa, mas acho que não havia dinheiro suficiente para o restante. É com esse tipo de coisa com que às vezes nos deparamos ao andar pela cidade. Nesse caso, basta uma limpeza, mas há casos bem piores tais como prédios tombados deixados a ermo por causa da especulação imobiliária. Como muitas vezes custa mais caro restaurar, e como demolir não é uma opção, pois estamos falando de prédios tombados, os proprietários deixam o imóvel chegar a um estado em que a única solução é colocar o prédio abaixo. Uma pena. A boa notícia é que muitos edifícios estão sendo restaurados.

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A graça de alguns lugares é justamente estar caindo aos pedaços. Propositadamente, eles são ocupados do jeito que estão – e quanto mais “original”, melhor. Refiro-me aos chamados ruin bars, do qual Szimpla é o caso mais famoso. Szimpla foi o precursor de todos os ruin bars e chegou a exportar a ideia para outras cidades fora da Hungria. O abandono e a depreciação muitas vezes fizeram com que os moradores acabassem desocupando alguns prédios residenciais. A ruína seria o fim mais lógico, mas foi então que um visionário teve a ideia de aproveitar o espaço para montar um bar misto de restaurante e espaço cultural. A ideia era não gastar, usar o imóvel do jeito que ele estava e decorar com o que havia disponível, não importando se a cadeira vintage combinava com a banheira (que por sua vez, não combinava com os bichos de pelúcia pregados na parede e as infinitas luzinhas de Natal). A ordem era justamente não ter ordem. Mas é claro que o ambiente descolado e a comida e bebida a um preço justo foram suficientes para não só atrair uma multidão de frequentadores, mas também transformar o local em atração turística e parada obrigatória na sua viagem à Hungria. Eu mesmo sou contra essa ideia de que alguém é obrigado a ir a algum lugar só porque alguém classificou a experiência como obrigatória, mas vou abrir uma exceção: esse programa é obrigatório, pois além de original, é um lugar onde você vai encontrar os húngaros em seu habitat natural. Em certos dias, há bazares e feiras nos locais – é preciso ficar atento à programação.

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E por falar em reforma, a cidade era um imenso canteiro de obras no período em que estive lá: obras no metrô, obras nas calçadas, prédios sendo restaurados. Bem, dizem que as obras na região central da cidade são uma maneira de evitar aglomerações e protestos em épocas que antecedem eleições. Pode ser. A verdade é que os húngaros não estão muito contentes com a atual situação política e econômica: aqueles problemas bem conhecidos por nós tais como corrupção, mau uso do dinheiro público, etc. E por ainda não ter cumprido com os Critérios de Maastricht, a Hungria ainda não aderiu ao euro. Mas espere, pois essa é a boa notícia: o país ainda é um destino barato na Europa. Sem euro, os preços na Hungria são relativamente baixos, permitindo até certas extravagâncias.

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Uma das coisas que mais me chamaram a atenção foi a diversidade do biotipo húngaro. Eu estava esperando ver loiros e loiras, mas encontrei de tudo, loiros, morenos de pele clara e morenos de pele mais escura. Os húngaros são originários da região dos Urais, na Ásia. Porém, quando os mongóis invadiram a Hungria no século 13, acabaram exterminando mais da metade da população. Quando o controle do país foi reestabelecido, o rei Béla IV foi obrigado a incentivar a imigração de eslavos e germânicos para popular novamente o país devastado e essa miscigenação fez com que os húngaros perdessem as suas características asiáticas.

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Um obrigado na língua local nunca é demais e agrada qualquer um. Sim, húngaro é uma língua impossível, mas não custa tentar aprender o básico do básico. Afinal de contas, você tem no mínimo 9 horas para decorar como pronunciar köszönöm. Para se ter uma ideia do quanto húngaro é difícil, imagine uma língua inteligível até mesmo para os falantes das línguas irmãs (no caso, finlandês e estoniano).  Imagine um brasileiro não entender nada (eu disse nada) do que um argentino fala. É nesse nível. Irmãs que brigaram e nunca mais se entenderam! O interessante é que húngaro é uma língua extremamente melódica, uma língua constantemente preocupada com a harmonia da palavra ao se acrescentar sufixos e prefixos: é assim que as palavras imensas tão comuns no idioma húngaro vão se formando.

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Indo para Castle District, no lado Buda de Budapeste, não estranhe se você não encontrar um castelo. O castelo de fato existiu um dia, mas foi destruído pelos otomanos. Hoje em dia, o topo da colina tem, entre outras coisas, o Palácio Real. Construído no século 18 pela Imperatriz Maria Tereza, o Palácio Real só foi visitado uma vez por ela. O prédio foi destruído na Segunda Guerra e reconstruído pelos comunistas na década de 1970, porém em uma versão mais simples, pois os comunistas não queriam nada que lembrasse o antigo regime. Hoje, o palácio sedia o National Gallery e o Museu Histórico de Budapeste. Era para ser um hotel da rede Hilton, mas felizmente, o governo não quis vender o prédio.

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A rede hoteleira acabou comprando um prédio ali do lado, com uma vista igualmente espetacular, logo ali perto da Igreja de São Matias.  A igreja é famosa pelas telhas coloridas de porcelana Zsolnay, que ganharam fama por resistirem ao mais rigoroso dos invernos húngaros. Aliás, essa descoberta foi tão inovadora na época que a porcelana Zsolnay passou a ornar vários prédios na Hungria, é algo que você não vai encontrar em nenhum outro país.  E se os mosaicos do telhado não te impressionaram, entre na igreja e aprecie os vitrais e as paredes ricamente desenhadas. Há ainda uma capela com o corpo do Rei Béla III.

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