06
set
América do Sul, Comer

A 8ª maravilha em Santiago

Estava em Santiago quando a premiada revista Restaurant publicou os melhores 50 restaurantes da América Latina de 2013. Fiquei feliz de saber que coleciono alguns bons ainda da época que não eram tão famosos, e mais ainda de saber que uma recomendação que tinha era, agora, premiado na 8ª posição. Na mesma hora que o chef Rodolfo Gusmán subia ao palco, eu ligava para o restaurante para marcar uma mesa para o dia seguinte.

Visitar o restaurante Boragó foi o que um chef mineiro me disse para fazer em Santiago, via Whatsapp. Era uma recomendação que passava de chef para chef, como um segredo dos bastidores dos festins, dos bons garfos, dos grandes festivais de gastronomia do país. Entrei no site, li sobre e me apaixonei pela ideia.

Restaurante Boragó

A proposta do restaurante já havia me chamado muita atenção, e agora só precisava convencer uma turma de 10 de que o restaurante não era molecular e de espuminhas do tipo Ferran Adrià. Resultado: mesa para 5. Uma vitória em um cenário de cansados e alérgicos.

Em primeiro lugar, o restaurante Boragó se intitula como endêmico e mistura todos os elementos da natureza chilena em pratos únicos e que são uma verdadeira viagem a Chiloé, Atacama e Patagônia, sem decolar da cadeira confortável no bairro de Vitacura, em Santiago.

Restaurante Boragó A experiência começa na ligação telefônica, quando reservo a mesa. Me perguntam se é minha primeira vez, para garantir um menu exclusivo, e se preocupam com possíveis restrições alimentares, já que mariscos podem ser um problema para muita gente.

O atendimento é impecável, da chegada ao restaurante até a despedida, passando por cada explicação de vinhos, pratos e conceitos utilizados na criação do menu. Nos sentamos em uma mesa central, decorada com pedras vulcânicas, próxima ao vidro que divide a cozinha que não esconde o trabalho artístico da criação de cada prato.

Restaurante Boragó

Começamos com água das geleiras do sul do Chile, e com aperitivos como mojito de flores e pisco sour de amora.

Restaurante Boragó Restaurante Boragó

Em seguida, nos servem as entradas, que ainda não fazem parte da lista de 7 pratos. Provamos torresmos de polvo, conserva de beterraba com iogurte, tortilla de pão e uma pastinha que serviram em um vasinho como se fosse um pé de feijão que fazíamos na época da escola com um chumaço de algodão, e uma delícia! Esta pasta se chama Pebre, e é uma composição única do restaurante, que utiliza, como eles mesmos dizem, o que a natureza os oferece, diretamente na horta orgânica do restaurante.

Restaurante Boragó  Restaurante Boragó Restaurante Boragó Restaurante Boragó Restaurante Boragó

A entrada continua sendo servida com o picoroco, um marisco muito famoso no Chile. Tem gosto de sashimi de ostra.

Picoroco Picoroco Picoroco

O primeiro prato é brindado com um excelente vinho branco, e se chama Pichanga Pré Cordillera: salada de salsão com anis em folha, flores, manteiga perfumada e pequenas folhas de rúcula.

Restaurante Boragó Restaurante Boragó

O mesmo vinho é harmonizado com Papa Bruja al Rescoldo y Yogur de Pajarito, feito de batatas roxas de Chiloé com flor de alho, cozidas em brasa como feito na região. As batatas, de cor bastante escuras, apresentam esta cor porque crescem com contato bastante restrito do sol.

Restaurante Boragó

Restaurante Boragó

O terceiro prato, confesso, não foi o meu favorito. Mas esta é só a minha opinião. Todos na mesa amaram. Chama-se Choro Zapato y Ensalada de Roca, e é servido em uma concha enorme de mexilhão com um molusco indefinido da região de Valdívia com salada de trevo, da região de Quintai. Aparentemente eu tenho uma leve alergia a mariscos e quase empacotei no restaurante, mas nada como uma traqueostomia rapidinha, ali mesmo na mesa, para continuar os trabalhos, afinal eu ainda estava na metade do caminho e não queria perder o momento.

Restaurante Boragó Restaurante Boragó

Ainda com o vinho branco, comemos um robalo bem gostoso com tinta de lula e ulte, e as folhas de Quintai e flores com aroma de mel e gosto de cebola. Gostei. Este prato se chamava Robalo y Hierbas Ácidas.

Muda-se o vinho, muda-se o tipo de carne. E muda o garçon também, que chega a mesa falando “pessoal, vocês se lembram do Bambi?”. Quando acenamos com a cabeça que sim, ele continuou “então, vamos comê-lo. Este prato é inspirado na caça do veado, na neve, onde o molho de beterraba com amora representa o sangue espalhado, o sal negro sobre o branco, a pólvora sobre a neve e a beterraba e os cogumelos seriam o que ele comia enquanto tomava um tiro na cabeça”.

Foi assim que ele nos apresentou o prato, que apesar de ser meio Hanibal, é muito bonito e (glup) o melhor na minha opinião. Chama-se La Caza del Ciervo. Pura arte.Vale lembrar que os chifres eram feitos de chocolate, em uma ótima combinação de carne de caça com cacau.

Restaurante Boragó Restaurante Boragó

Restaurante Boragó

Chegando ao fim do curso, somos servidos de um moscatel do Atacama para acompanhar os pratos de sobremesa. Um macarron feito de sorvete fermentado, receita também do Atacama, com e mel de arrope, deixam a mistura doce e azeda ótimas com o vinho.

Restaurante Boragó Restaurante Boragó Restaurante Boragó

Depois disto, o prato que representa o outono e suas folhas secas, em um galho congelado com nitrogênio e peumos, fruta típica do Chile, debruçados em uma farofa doce que imita a terra, remetendo-nos a região de Chacauco.

Restaurante Boragó

Para finalizar, antes do cafezinho, um prato que tivemos que comer muito rápido, e nem deu para tirar foto: Frío Glacial: um pedaço de menta muito gelado em cima de uma geléia que imitam a sensação de frio da Patagônia.

Restaurante Boragó

O menu degustação custa 51 mil pesos chilenos (125 dólares, mais ou menos), e inclui 7 pratos harmonizados com vinhos. Uma experiência que recomendo muito em Santiago.

  • Tatiana

    Neste eu vou!!!