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ago
Europa, Fotografar

A beleza do lago de icebergs

Um dia memorável. É assim que eu defino o meu penúltimo dia na Islândia. Eu acho que não há melhor maneira de terminar uma viagem por aquele país do que vendo uma geleira gigantesca na sua frente. Como não se sentir pequeno diante de tamanha grandiosidade? E para completar o espetáculo da natureza, há um lago repleto de icebergs bem ali na frente – esse, feito com uma pequena participação do homem.  Se o nome do país tem a sua origem no gelo, era ali que a Islândia era mais Islândia. Clichê, porém espetacular.

O nome da geleira é Vatnajökull. Ela vigia a paisagem como um guarda, quieta, imponente, sempre esperando arrancar suspiros dos turistas. Um dia Vatnajökull já chegou até onde hoje passa a estrada, mas com o aquecimento global e o degelo, hoje ela está menor (o que não significa dizer pequena, pois Vatnajökull é a maior geleira da Europa). Para chegar lá, é preciso dirigir cerca de sete horas margeando a ilha em direção a leste. Eu preferi contratar um passeio, pois se fosse dirigindo, com certeza a viagem teria demorado uma eternidade posto que eu iria parar a cada 500 metros para tirar uma foto – sem contar a minha habilidade inata de me perder.

A excursão de ônibus dura 12 horas. Várias empresas fazem o trajeto e eu optei pela Gray Line. Ao se apresentar, a nossa animada guia ruiva que usava um lopapeysa, o tradicional suéter islandês, se gabou de conseguir falar durante todo o trajeto – e ela não estava mentindo. E enquanto admirávamos estradas desertas que se perdiam na imensidão da planície islandesa, ela ia narrando as famosas sagas islandesas, histórias folclóricas de um povo que até hoje dá muito valor às suas próprias lendas.  A que mais me chamou a atenção foi a do Sæmundur fróði (Sæmundur, o Sábio) – compre um livro de sagas islandesas se puder, você não vai se arrepender.  Diz a lenda que o padre estudou magia negra com o diabo e depois de ter se graduado, usava da sua esperteza para enganar o professor.

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A atração que dá nome ao passeio é o lago de icebergs formado há cerca de 70 anos por conta do degelo do Vatnajökull. Jökulsárlón significa Lago de Rio Glacial (Jökull = geleira, sár = rio, lón = lago). A paisagem é tão surreal que Hollywood já usou o lugar como cenário para alguns de seus filmes. Imagine icebergs azuis neon derretendo em direção ao mar. É de tirar o fôlego. E de repente, um estrondo avisa que um bloco se partiu… O passeio no veículo anfíbio pela lagoa já estava incluído no preço do passeio, mas se você viaja de carro, é possível pagar à parte. E se você gosta de whiskey, sugiro levar um copo e um pouco da bebida para saborear com o gelo mais puro que há.

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No caminho de volta, ainda paramos na cidade de Vik, famosa pela praia de areia vulcânica. Como em excursões o tempo é sempre cronometrado e estávamos ali para uma parada estratégica no posto de gasolina para abastecer e desabastecer, tive que optar entre o conforto de um ambiente aquecido e explorar a praia. Não tive dúvida. A praia em muito me lembrou a do filme islandês que eu tive a oportunidade de ver em um cinema alternativo de Reykjavík: Hrafninn flýgur, conhecido como o filme mais autêntico de vikings.  Um filme que eu não teria na minha coleção, mas que foi interessante assistir por causa das circunstâncias. Certamente, a praia é um lugar aonde as pessoas não vão para estender uma toalha e tomar sol. Guardei algumas pedrinhas no meu bolso e fiquei observando aquela praia de aparência sombria e triste. Mas era justamente esse o seu encanto. Molhei a mão na água e fiquei sem entender o que levava um grupo de letões a entrar no mar. A nuvem que pairava sob a praia acabou passando e tudo ficou menos fantasmagórico, mas ainda havia aquela sensação de natureza em seu estado mais bruto. E ao fundo, as enormes estruturas de pedra que se erguem no mar e desafiam a voracidade do oceano.  Eu poderia morar em uma casinha ali.

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A última parada foi em uma linda cachoeira chamada Seljalandsfoss. Leve um casaco impermeável, pois é possível passar por detrás da cachoeira e você não vai sair seco dessa caminhada.

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Já no final do passeio, eu dava umas breves cochiladas, mas a ruivinha continuava firme e forte.

Ao mesmo tempo que eu não queria que aquele dia acabasse, eu não parava de olhar o relógio: queria chegar logo a Reykjavík. Propositalmente, eu deixei de falar sobre uma outra banda islandesa no meu primeiro post. Eu estava andando pela Laugavegur, a principal rua de compras de Reykjavík, quando fui seduzido por umas lembrancinhas expostas na vitrine de uma loja de souvenir. Entrei. Eis que estava tocando uma música muito bacana (cujo nome, mais tarde eu descobri ser Tennessee Stud). Eu perguntei para a atendente qual era o nome daquela banda e que ela apontou para a pilha de CDs à venda no balcão. Acabei comprando às cegas e, sem ter como tocar o CD, tive de recorrer ao Youtube (Deus te abençoe, Youtube).   Acabo procurando por outras músicas deles e descubro alguns vídeos da banda tocando em um lugar chamado Rosenberg Café. Como o destino às vezes age a nosso favor, eu estava andando sem rumo pelas ruas da cidade e me deparo com o tal do Café. Entro sem compromisso e descubro que Brother Grass se apresentaria no meu penúltimo dia na Islândia. Eu não podia acreditar! E foi assim que eu tive o privilégio de assistir a uma apresentação ao vivo deles. Perdi o comecinho por causa do passeio, mas tudo o que vi e ouvi ficou guardado para sempre na minha memória. Eles cantam em inglês um ritmo tradicional norte-americano chamado Bluegrass – um ritmo bem sulista, uma mistura de música negra americana com folclórica, muitas vezes com temática religiosa. Adorei o ritmo, adorei as letras quase sempre melancólicas e adorei a presença de palco deles. Virei fã de carteirinha.

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