07
mar
África, Comer

São Tomé o quê?

Não é em Porto Príncipe. E nem São Tomé das Letras. O lugar que visitei foi São Tomé e Príncipe, uma ilha africana na costa do Gabão e 30 horas distante do Brasil. Até seria possível percorrer o menor caminho em linha reta saindo de Fortaleza em, no máximo, 4 horas de voo (se houvesse um), mas hoje o melhor jeito de chegar à cidade de São Tomé é via Lisboa, em um voo que deixa a capital portuguesa todas as sextas-feiras à 00h20, e que sai do Brasil na quarta-feira à tarde. Nada mal passar o dia caminhando por Lisboa antes de enfrentar longas 6 horas de voo pelo Noroeste da África até o sol começar a nascer na ilha. Sim, o aeroporto internacional de São Tomé não conta com iluminação suficiente que permita um pouso noturno, e é preciso deixar os primeiros raios de sol surgirem para iniciarmos a aterrissagem.

O avião fretado da TAP chega a STP

Aeroporto Internacional de São Tomé

Este é o primeiro sinal de um lugarzinho parado no tempo, tempo este anterior à sua independência de Portugal em 1975. Andar por São Tomé e estar em pleno estado vintage, de letreiros à moda antiga e um ar provinciano de cidade sem nome de ruas, sem wi-fi e sem cartão de crédito, mas moderna e ousada na hora de aceitar a moeda de pagamento: euros!

A fachada do meu prédio favoritoOficialmente a moeda é dobra, e você só a encontra no próprio país (e comigo também, pois eu trouxe algumas por engano na minha carteira).

São Tomé, no século XVI, era a parada principal dos navios negreiros que embarcavam para o Brasil cheio de escravos. Foi em uma destas escalas tristes da História do nosso país que os portugueses levaram mudas de nosso cacau de Ilhéus e os plantaram nas ilhas de São Tomé e de Príncipe. Hoje o país vive de cooperação internacional e de um pouco da exportação do excelente cacau e café existentes. O povo santomense, no dia a dia, conta com o que a natureza dá: fruta-pão, peixe, banana e iguarias sazonais como carne de morcego, tartaruga e macaco.  E assim têm uma vida leve-leve.Vista da cidade de São Tomé

Leve-leve é o jeito santomense de ser, de viver uma vida tranquila e regrada e com compromissos sob medida. Mesmo assim é comum ouvir de um local, quando um estrangeiro (branco, como dizem) pergunta se está tudo bem, que “está mais ou menos…”. Significa o mesmo “tudo ótimo” que respondemos aqui no Brasil mesmo tendo 5 meses de cheque especial vencido e 8 de pagamento mínimo do cartão.

Orla de São Tomé

Falando em comida, São Tomé tem uma boa variação de restaurantes.Assédio das crianças por uns contos de réis

Nada melhor que um peixe fresco do Restaurante da Dona Tetê, servido em porções generosas de fruta-pão frita, pala-pala de matabala (chips de inhame local) e a cerveja local Rosema. E foi exatamente na Dona Tetê que comi meu prato favorito de São Tomé: calulu de frango. Em um jantar muito especial, Tetê cozinhou por 24 horas 12 tipos de ervas diferentes junto com um frango inteiro já que, em sua opinião, não havia peixe bom o suficiente para o prato. Dona Tetê é exigente e não compra nada congelado. O resultado é um espesso caldo verde escuro como maniçoba, acompanhado de pão de banana e servido no quintal de sua casa pela sua simpática família. Muito bom, mas pesado como uma feijoada. E pra aliviar, lascas de jaca fresca e docinha. Eu achava que não gostava de jaca, e agora, de volta a Brasília, tenho mais um bom motivo para caminhar no Eixão aos domingos.

Há quatro outros bons restaurantes na cidade: restaurante do hotel Omali Lodge, que às segundas-feiras tem dose dupla de massas (até então só conhecia dose dupla de chopp e  caipirinha), e onde tomei um delicioso sorvete de gigumba (amendoim). Piratas, onde experimentei o sanduíche de bacalhau recém incluso no cardápio; o Bigodes, que tem uma vista linda da cidade e um bom cardápio de peixes e o Clube Santana, 10 km mais distante da cidade e com um bom buffet de carnes e saladas. Eles até ensaiam um churrasco no estilo brasileiro!  A pracinha vintage

E antes que alguém questione, não, infelizmente não provei o morcego que tanto queria porque não conseguiram caçá-lo a tempo para mim. Outro lugar obrigatório na cidade – e também um favorito – é passar uma tarde no Xico´s Café, antigo Café e Companhia. Parafraseando um amigo que morou muito tempo lá, “Café e Companhia está para São Tomé assim como Ricky´s Café está para Casablanca”. E é verdade. Tanto o ar antigo como o encontro de muitos estrangeiros faz com que a gente se sinta acolhido em um café que nos entende, independente se falamos a mesma língua do país. É estar fora de casa e ser compreendido. E o chame, pra mim, está nos posters colados na parede e na sua localização,na praça que havia o meu prédio favorito na cidade.Xico´s Café

Pala-pala de matabala

Ainda na Dona Tetê, provei a azeda frutinha com cara de abobrinha e gosto de jiló chamada safú. Dizem que quem prova volta. E se isto for verdade, que preparem as redes para a minha promessa: meu guembu será servido antes do primeiro dia clarear.

Safú

Cerveja Rosema

mapa STP

Leitura sugerida: Equador

  • Marconi

    São Tomé e Principe não é uma ilha no golfo do Gabão, mas são DUAS ilhas no golfo do Gabão. Você visitou a ilha principal, onde fica o aeroporto internacional, mas o país é composto de duas grandes ilhas e outras tantas pequeninas. Digo isso, porque se você falar por aqui que São Tomé e Principe é apenas uma ilha, o pessoal da região autônoma do Principe vai te crucificar…. brincadeira à parte…. adoramos sua visita a estas Ilhas. Já que provou Safu, volte sempre. 🙂

    • Verdade, Marconi. Falha minha.
      Adorei minha estada em São Tomé e obrigada pela super recepção.
      Beijos!

  • Marcello Rolim Coelho

    Ótimo artigo, Thaísa. Com o texto envolvente e as fotos, senti-me lá.

  • Liliana Navarra

    Olá, acabei de encontrar este post muito interessante. Tomei nota dos restaurantes aconselhados. Obrigada.
    Existem transportes como autocarros ou similares na capital?
    Bom fim de semana
    Liliana

    • Oi Liliana.
      Há, sim, alguns taxis na cidade, mas nada regulamentado. Tudo deve ser negociado antes. Sugiro que contrate no próprio hotel.
      Um abraço!