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jan
Bater Perna, Europa

Berlim

“Paris is always Paris, but Berlin is always becoming Berlin”. Com esta frase pronunciada por um guia, começo o meu relato sobre Berlim.

Berlim, de fato, é um cenário em transformação. Capital da Prússia, do Império Gemânico, da República de Weimar, do Terceiro Reich, da Alemanha Oriental e da atual República Federal da Alemanha, este centro urbano sentiu na pele todas as características destes tempos, mas segue em frente, mesmo com essas marcas e se recusa em viver do passado.

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Hoje, Berlim é uma capital multicultural, influenciada pela presença de diversos imigrantes e pelas diferenças culturais e sociais entre leste e oeste (comunismo e capitalismo). Talvez seja muito mais do que a capital da Alemanha, mas quem sabe a capital de um novo mundo, onde a liberdade individual é o seu maior expoente.

Eu gosto de dizer que Berlim mistura o coletivo e o personalizado de uma forma única. Pode parecer estranho estes dois termos se complementarem, mas é essa a sensação que me faz admirar ainda mais esta cidade. Por incrível que pareça, Berlim é uma cidade com mais de 3 milhões de habitantes em que tudo funciona e há sempre um cantinho capaz de agradar ao seu gosto.

O sistema público de transporte é impecável, e você é capaz de chegar aonde quiser e no tempo planejado. Para tanto, a cidade conta com um sistema de transportes multimodal super conectado, seja por meio de ônibus, metrô, ou S-Bahn (um tipo de trem urbano), não há desculpas que justifiquem um atraso – salvo se você pegar o sentido errado, claro.

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Os ônibus são extremamente pontuais, costumam passar nos minutos indicados nos pontos, e muito confortáveis. Ao turista de primeira viagem que queira conhecer os principais – e imperdíveis – pontos turísticos da cidade, recomendo os ônibus das linhas 100 e 200, cujo bilhete custa meros € 2,30, muito menos do que você pagaria em um sightseeing bus – algo em torno de € 14,00.

A Berlim histórica contempla marcos dos governos nazista e soviético, principalmente, além de diversos espaços em homenagem aos mortos das guerras, em especial o Memorial do Holocausto – uma ampla praça com diversos blocos em concreto de tamanhos diferentes alocados sobre um solo irregular. Não há placas ou indicações do que se trata aquele memorial. A intenção de Peter Eisenman foi, justamente, fazer com que os visitantes façam as suas próprias perguntas. Curiosidade: durante a construção do memorial do holocausto, a empresa que forneceu o composto químico anti-grafite foi acusada de ter ajudado o governo nazista em sua campanha de extermínio em massa.Berlim3

De museus Berlim está farta, destaque especial para o Pergamon Museum na Museuminsel – literalmente uma ilha de museus. Provavelmente o que eu achei mais fora da curva foi o Bauhaus – Archiv, museu que abriga algumas obras deste movimento artístico que inspirou até o final da década de 20 boa parte da arquitetura alemã e até hoje nos inspira com as suas cores e formas – muito próximas ao Art Deco. O movimento Bauhaus foi banido pelos nazistas por ser considerado demasiadamente subversivo, já que se tratava de um modernismo encabeçado especialmente por russos, e que os nazistas o associavam ao comunismo. Dica: a lojinha do museu é bem legal!Berlim4

A experiência cultural pode também ser feita por meio de walking tours realizados diariamente pela Sandeman’s New Berlin Tours, que vão desde o Free Walking Tour (que não é “free”, o costume é darmos uma gorjeta de € 10 ao guia no final do tour, é sacanagem não reconhecer o trabalho deles), até os imperdíveis tours temáticos, como o Communist Berlin, o Third Reich Berlin e o Alternative Berlin, para mim, o melhor!

É justamente nessa Berlim alternativa que eu queria chegar. É nela em que a gente vê essa capital efervescente de tendências. Seja nos diversos grafites espalhados pela cidade, na batida eletrônica das casas noturnas mais loucas, ou nas mais interessantes lojas e cafés.

Este movimento é mais nítido na região da antiga Berlim oriental porque os preços eram mais acessíveis a jovens e artistas que migraram em peso com a queda do muro. Esta não é mais a realidade, a especulação imobiliária invadiu esse lado da cidade de forma que os movimentos artísticos vêm perdendo cada vez mais espaço.

É triste pensar que em 12 de setembro de 2012 Berlim perdeu um de seus maiores símbolos de liberdade artística para a especulação imobiliária. O Kunsthaus Tacheles configurava como um verdadeiro abrigo onde diversos artistas do mundo inteiro puderam desenvolver e expor os seus trabalhos. A construção de 1907, que antes da opressão nazista serviu como loja de departamento no quarteirão judaico de Berlim, foi ocupada por artistas que até então vinham travando uma ferrenha briga contra os donos do imóvel.

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O espaço – enorme – continha ateliês das mais variadas artes, havendo uma prevalência para as artes do grafite e de esculturas metálicas – estas que continuam expostas no parque atrás do Tacheles – andar por dentro do Tacheles foi uma experiência única, as suas paredes pareciam trincheiras de grafites, não havia espaço em branco. Os ateliês continham os trabalhos mais inusitados e era possível ver os artistas trabalhando in loco.

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A região no entorno do Tacheles é outro espetáculo à parte. Recomendo uma caminhada pela Oranienburger Straße. Ali há diversas lojinhas fora do usual onde tudo parece ter um toque único, de roupas a objetos para a casa.

Outra rua que merece ser explorada é a Alte Schönhauser Straße com diversas lojas e cafés, especialmente na parte em que ela vira a Neue Schönhauser Straße. Esse endereço é um pouco mais requintado, então os preços são consideravelmente mais altos aqui, mas nada que não mereça uma olhada.Berlim7

Por fim, caminhe pela animada Rosenthaler Straße e não deixe de entrar numa viela escondida entre uma loja chamada PanAsia – cuja logo remete a PanAm – e um café chamado Café Cinema. Ali ainda é possível ver um pouco dessa Berlim alternativa.Berlim8

O espaço tem um café, um bar – que vale a visita – diversos grafites pelas paredes – que merecem fotos – e algumas lojinhas que vendem de roupas criadas por artistas locais a uma coletânea impressionante de livros sobre arte – obviamente que com o enfoque em artes de rua. É parada do Alternative Tour da New Berlin Tours que merece ser explorada com calma.

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Andando por estes lugares talvez você consiga entender aquela contradição do começo, o coletivo que encontra o personalizado. Basta olhar os cafés e as lojas, são tantos, mas cada um parece ter o seu estilo e isso é tão interessante, nada de mesas padronizadas ou letreiros grifados com marcas de cervejarias ou refrigerantes. Os cardápios também são diferentes, não há lugar comum.

Dentre os programas mais legais, considero a visita dominical que fizemos ao Mauerpark. Esse parque é uma grande bagunça aos domingos – claro que ao melhor estilo alemão, contemplando um mercado das pulgas repleto das quinquilharias mais interessantes (ao estilo Feira de San Telmo de Buenos Aires), diversas barraquinhas de comidinhas deliciosas e acima de tudo o imperdível karaokê ao ar livre, tudo na mais absoluta ordem.Berlim10

Funciona assim, um monte de gente se espreme no anfiteatro do parque, um rapaz chega de bicicleta com um guarda-sol e conecta o seu MacBook a uma potente caixa de som ligada a um microfone. Dispõe ao público uma lista e uma caneta. Aos poucos o palco é invadido sem cerimonia por um público heterogêneo desesperado em colocar o seu nome e a música que será cantada.Berlim11

Aos poucos vamos vendo o pequeno palco ser tomado pelos maiores talentos e, principalmente, pelos maiores micos – a plateia vibra mais do que o Maracanã em final – os micos são facilmente superados pelos próximos. A sensação é que estamos dentro de um vídeo do youtube com mais de 1.000.000 de acessos. É uma grande terapia coletiva do riso.

No mesmo dia em que fomos ao Mauerpark, seguimos para outra experiência que não pode faltar – uma visita ao afastado East Side Gallery, uma galeria a céu aberto com entrada franca em que artistas expressam a sua arte no grande mural em que viraram estes 1,3 Km de muro de Berlim. Como nessa região não há muitas outras atividades diurnas, recomendo que a visita seja feita por meio do Alternative Tour, porque o guia te leva a outros lugares por ali que guardam muitas histórias dessa Berlim pós muro.Berlim12

Quando o assunto é vida noturna, a região próxima ao East Side concentra as principais casas da cidade – e chegar e sair é fácil, o transporte continua funcionando de forma impecável. São destaques: Berghain, Panorama Bar, Trësor, Suicide Circus, Watergate, Club der Visionaire, mas fiquem avisados, a música predominante é eletrônica e bem diferente da House Music que ecoa no Brasil.

Atenção: o acesso às casas pode ser bem restrito, não por falta de espaço, mas é muito comum barrarem nas portas sem algum motivo específico – turistas são facilmente rejeitados, por isso a dica aqui é parecer o mínimo turistão possível, ou seja, evite fazer aquela arruaça na fila ou parecer parte de um grupo grande, noitadas como Berghain dificilmente aceitam grupos com mais de três pessoas. Outra dica: os locais não se arrumam exageradamente para ir para a night, eles costumam ser bem low profile, em especial nessa região.

Isso não acontece em todas as casas, mas naquelas mais renomadas e consideradas mais locais. Se você não curtir música eletrônica, talvez o estresse não valha a pena, agora, mesmo que não curta, eu diria que visitar um lugar desses é experiência sem igual, seja pela música, seja pela iluminação e pelos espaços – em nada parecidos com as casas brasileiras.

Infelizmente, fui barrado na Panorama Bar – essa da foto – mas pude conferir a Trësor e a Suicide Circus. Eu diria que é quase uma experiência antropológica de tão diferente de tudo o que eu tinha visto até então, é difícil não ficar chocado com tantas diferenças culturais – leia-se: muita gente usando drogas – mas uma vez dentro desses lugares é melhor deixar o olhar crítico de fora e curtir o momento, afinal ninguém vai te incomodar.

Na Trësor fiquei tonto com a iluminação absurda, eu devia ter bebido umas três cervejas antes de entrar e aquele corredor cheio de luzes conseguiu me deixar maluco quase que instantaneamente. Essa casa é gigante e fica sob uma estação de tratamento de água. O espaço possui as características de seu passado quando foi uma grande agência bancária. Sim, é possível ouvir um som em meio aos cofres de mais de 100 anos localizados no andar inferior.Berlim13

Já a Suicide Circus fica praticamente debaixo de uma ponte, é menos ambiciosa e difícil de ser encontrada – um local nos ajudou a chegar lá – a música é da melhor qualidade e o negócio é ir para dançar, esqueça aquele esquema de VIP e fogos de artifício nos baldes de Möet Chandon, isso não entra aqui.

Mas a noite de Berlim não vive só de música eletrônica, tem lugar para agradar todos os gostos. A exemplo disso, foi criado um site bem bacana para divulgar a variedade de casas. O Club Matcher – é um site oficial que serve de guia para a vida noturna local. É legal porque antes de dar as sugestões de casas, o site se utiliza de artifícios para te conhecer, chegando a sugerir algumas músicas antes de trazer os logradouros, apenas para confirmar o seu estilo musical.

Enfim, sou um apaixonado por Berlim e 99% das pessoas que eu conheço e foram também são. Difícil ficar indiferente quanto a um destino capaz de oferecer tanta história e entretenimento. Poucos lugares são assim no mundo.Berlim14

Dessa vez, decidi relatar um pouco desta Berlim alternativa – e um pouco fora dos guias. Isso, no entanto, não quer dizer que os seus pontos históricos não valham a pena, muito pelo contrário, conhecê-los ajuda-nos a compreender o que se passa nessa cidade. Sem isso, fica difícil de se entender o movimento que vem modelando a cidade hodiernamente e que está enraizado na vida noturna e nas artes de rua. Afinal, Berlim vem cada vez mais se tornando Berlim.

Antes de ir…

Assista a alguns filmes:

Adeus, Lênin!

A vida dos outros

A queda! As últimas horas de Hitler

Corra, Lola, corra!

Berlin calling

E se inspire com a música destes artistas:

– Paul Kalbrenner

– Fritz Kalkbrenner

– Oliver Koletski

– Sascha Funke

– Booka Shade

– Kraftwerk

– Telefon Tel Aviv

– Kolectiv Turmstrasse

brunovalente

Quem escreve o post de hoje é Bruno Valente, um carioca apaixonado por cidade grande e esportes radicais. Adora ser um guia de sua própria cidade, mostrando as joias escondidas de seu Rio de Janeiro.

 

  • Karine Cavalcanti

    Muito bom o post!! Me sinto privilegiada de ter lhe tido como guia!!

  • Bruno, adorei suas dicas…fico aqui fazendo um passeio pelo seu texto e consigo me transportar pra cada lugar citado por vc….toda e qualquer cidade se torna especial, qdo vista pelos olhos apaixonados de um viajante…Berlim com certeza é deslumbrante!Obrigada por dividir sua experiência!
    Fico aguardando seu relato sobre outros lugares….

  • Annelise

    Muito bom! Dá vontade de voar pra Berlim e passar uns tempos por lá!

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