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jan
Ásia, Experimentar

A minha casa no Japão

Não me entenda mal, não é que eu não tenha gostado de Tóquio. Mas, no final das contas, é uma imensa grande cidade. Eu queria mesmo ver o Japão de antigamente, passear por um jardim japonês ao som de koto[1], ainda que a música tocasse só na minha mente. E para isso, nada melhor do que se hospedar por uma noite em um ryokan[2]. Melhor ainda se for em um templo budista no alto de uma montanha onde tudo conspira para criar a atmosfera de Japão feudal com que eu tanto sonhava. Optamos pelo Shojoshin in, no Monte Koya (Koyasan). Fizemos a reserva pelo Japanese Guest Houses e a nossa reserva dizia: Room Style: 1 Japanese style Room.

Imagine a nossa surpresa quando chegamos lá e vimos que tínhamos uma casa inteira para nós. E a casa não era nossa porque não havia outros hóspedes. Ela era nossa porque o monge que usava obrigado como vírgula deu pra gente o melhor da acomodação, sem que sequer tivéssemos pedido. Foi o equivalente a pagar pra viajar de econômica e viajar de primeira classe. Visualizou? Eu já achei a casa enorme para os padrões brasileiros, para os japoneses, aquilo deve ser uma mansão. Colocamos o nosso yukata[3] e ficamos andando de um lado para o outro, explorando todos os cômodos da casa e o jardim japonês. Até que me sentei na varanda e fiquei imaginando como deveria ser morar em um lugar assim… Imagine ver as estações contando o tempo passar: flores de cerejeira na primavera, as cigarras cantando no verão, as cores típicas do outono, o branco do inverno. As portas de correr eram uma atração à parte. São as portas de correr que dividem a casa em ambientes. Quer privacidade? Feche a porta. Quer mais espaço? Abra a porta e a sala dobra de tamanho. Cada porta tinha um motivo japonês diferente sendo que algumas eram folheadas a ouro. A casa é de um luxo contido, muito acolhedora, e tem espaço de sobra. Toda de tatame, não há camas, você dorme no chão. E claro, você precisa tirar o sapato antes de entrar. E a casa ainda conta com ofuro!

Hanare

Entrada do hanare

Varanda

Sala

Quarto

Yukata

À noite, foi servido um jantar vegetariano no templo. Tudo muito gostoso e com uma apresentação impecável. Senti falta de mais contato com os outros hóspedes, pois havia uma divisória entre cada grupo e a interação foi zero, justamente em um momento propício para puxar uma conversa.

Jantar

No dia seguinte, logo depois do café da manhã, nós e os outros hóspedes fomos convidados a participar de uma cerimônia budista. Foi muito interessante.

Entrada principal do templo

Pátio do Templo

Eu adorei a experiência. Já tinha me hospedado em um templo na Coreia e por isso não hesitei me hospedar nesse. Só senti falta de mais atividades e de mais interação com os outros hóspedes. Na Coreia, tivemos palestras, demonstrações de artes marciais, comida servida em um refeitório, caminhada matinal. Foi mais participativo, apesar de que a proposta era outra. Mas sobre essa experiência eu falo mais em outra oportunidade.

Koyasan foi fundada no século 9. A cidade é relativamente pequena e é possível percorrer boa parte a pé. Como o templo fica praticamente no meio da cidade, fizemos um lado no dia em que chegamos e o outro, no dia que saímos. Há vários templos na cidade, além do famoso cemitério Okunoin, lugar de eterno descanso do monge Kukai, fundador do Shingon budismo, um ramo originado em Koyasan. Há um caminho emoldurado por milhares de túmulos, portais, estátuas de Buda e cedros gigantescos.

Okunoin

Okunoin

Portal Okunoin

Okunoin

Templo

Jardim do Templo

Templo

Outro ponto alto desse trecho da viagem foi o momijigari (紅葉狩り[4]). Momijigari é a expressão japonesa para o ato de apreciar as folhas das árvores em sua coloração de outono, aquela mistura de tons de amarelo e vermelho que me deixa hipnotizado. Viajei para o Japão durante o início do outono e a coloração em Tóquio e Quioto ainda não estava no ápice. Apesar de estar localizada em latitude mais baixa do que Quioto, por conta da altitude, a folhagem já estava bem mais colorida. Ao chegarmos lá, fomos surpreendidos por uma explosão de cores. As fotos falam por si só.

Folhas de outono

Folhas de outono


[1] Instrumento japonês de corda

[2] Hospedagem típica japonesa

[3] Um quimono mais casual

[4]紅 = momi (vermelho), 葉 = ji (folha), 狩り = gari (procurar)

 

  • Fernanda

    Oi!
    Estou achando um máximo esse blog!
    Tirarei férias em dois meses e estou com passagens para a Europa. Você tem planos de publicar algum artigo sobre destinos europeus (estou planejando visitar Paris, Amsterdam, Berlim e Lisboa).
    Obrigada,
    beijos!

    • Thiago Magalhães

      Obrigado, Fernanda!

      Coincidentemente, nós tínhamos um post sobre Berlim pronto para publicar (colaboração de um amigo da minha irmã)! =] Já está no ar. Em breve, teremos sobre Praga e Porto.

      Acompanhe a gente no Instagram também (janelaoucorredor). Já estamos em missão.

      Thiago

  • Renata

    Essa experiência combina muito com você. Eu também prefiro essa visão do Japão. Se um dia for para lá, vou começar por aí. Adorei as cores.

  • Tame

    Lindíssimas fotos! Isso tudo é tão… Japão! Upgrade na acomodação… A refeição me assustou: eu não ia gostar de nada! 🙂 Imagina fazer aquele lindo e inusitado caminho em cima do salto??? E essa “explosão de cores” me lembrou os ipês na seca de nosso deserto brasiliense. Repito: as fotos ficaram lindas demais.

    • Thiago Magalhães

      O ipê é a nossa cerejeira. Eu vou encher o meu quintal com ipê. =]

  • Camila Albuquerque

    Obrigada Janela ou Corredor por compartilhar a experiência em um templo budista no Japão. Tive a oportunidade de conhecer exatamente esse que você citou e a experiência foi maravilhosa. Pretendo voltar para Monte Koya para passar mais tempo por lá.