16
jan
Ásia, Bater Perna

Jerusalém de Ouro

Eu confesso: eu achei que eu não fosse gostar de Israel. Aquela paisagem bege e o calor não me inspiravam. Optei por ir no inverno.

Eu tinha a opção de voar pela Swiss, mas na hora de comprar a passagem, escolhi voar com a El Al. Gosto de experimentar companhias aéreas diferentes e essa era a minha oportunidade. A El Al é uma das companhias mais seguras do mundo, mas o preço que você paga é ter que responder a um questionário completo antes de embarcar. E você achou que pedir um visto americano fosse complicado. E ainda tem o baculejo. Chego no balcão e o atendente me cumprimenta com um shalom. Respondo na mesma moeda. Entrego o meu passaporte. Ele vê que não sou israelense e pergunta: você fala hebraico? Penso: “sim, um pouco”. Respondo: “não”. Melhor não dar margem para mais perguntas. Mas ele não desiste e me mantém lá por alguns minutos. E as perguntas se repetem para ver se eu não caio em contradição. E ele me pede a combinação da minha mala. Sim, eles abriram – e não foi na minha frente. Ele me manda sentar e aguardar o próximo agente. Sou escoltado para uma sala por um rapaz simpático. Ele abre a minha mochila, separa os eletrônicos, passa tudo no raio-x, passa uma buchinha mágica para detectar pólvora (???) e estou liberado, pronto para viajar. Sabia que não era suspeito, mas o rígido procedimento de segurança pelo qual passei me deixou na dúvida se de fato fui eu que fiz a minha mala, se eu não tinha aceitado nada de nenhum estranho, se não tirei os olhos da minha bagagem em nenhum momento. O voo de Zurique para Tel Aviv é rápido. O serviço de bordo é bom, a comida também, mas senti falta das telas individuais e de mais opções de filmes, ainda que em um voo de apenas 3:45.

Avião da El Al

Refeição a bordo

Rotas El Al

Na imigração, mais perguntas. “O que vai fazer aqui? Quanto tempo ficará? Conhece alguém?” E as perguntas se repetem. E o moço não para de folhear o meu passaporte. De novo, tenho que esperar no banco do reserva. Alguns minutos depois, um outro funcionário veio me fazer mais perguntas. Sou liberado para entrar. Uhu!

Há três modos de sair do aeroporto: táxi, ônibus ou van. Não fui de táxi, cê sabe, fui de van. O frete custa 60 dinheiros, o equivalente a 30 reais (você também não gosta quando não precisa fazer muita conta para converter a moeda local?). Mais conveniente do que a van, impossível: me deixou na frente do meu albergue. Fiquei hospedado do Abraham Hostel, o qual recomendo sem pestanejar: excelente localização, boas instalações, funcionários atenciosos.  Abraão foi o primeiro mochileiro. Foi ele quem escutou um chamado que o guiou a ir da Mesopotâmia para a Terra Prometida, a terra que seria dele e das gerações futuras.

O interessante é que não importa o tamanho do lugar de onde você vem, todo mundo já ouviu falar de Jerusalém. E não é por menos: dois dos momentos mais importantes para o cristianismo aconteceram em Jerusalém. E como se não bastasse, a cidade também é sagrada para o judaísmo e islamismo. De peregrinos a conquistadores, é imensa a lista de povos que foram levados àquele lugar por diferentes razões. E por conta desses povos todos que um dia passaram por lá e deixaram a sua marca, a cidade é muito rica em história. Por isso mesmo, Jerusalém é um lugar fascinante, até mesmo para alguém não religioso como eu. O som das mesquitas, os sinos das igrejas e os milhares de peregrinos cristãos fazendo o caminho da Via Dolorosa, judeus ortodoxos caminhando pelas ruelas em direção ao Muro das Lamentações. Tudo aquilo bem misturado e bem separado.

Comecei o meu passeio por um dos lugares mais interessantes da cidade: o bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim. O bairro é habitado por judeus que vivem para estudar a Torah. E não é só isso, eles seguem as escrituras literalmente. Não tem como não se sentir um peixe fora d’água neste bairro onde parece que o tempo parou. Televisão é proibida e o único meio de eles saberem as notícias do mundo [deles] é por meio de cartazes colados nas paredes, os pashkvilim. A média de filhos para cada família é de 8 crianças e pelo fato de que a grande maioria depende exclusivamente de renda do governo, não é à toa que o lugar transparece uma certa pobreza.

Cartazes no bairro Mea Shearim

Ortodoxo

Vista-se com muita modéstia ao entrar. Abuse do seu pretinho básico e nada de roupas ousadas. Se você tem dúvida sobre como eles pensam, lembre-se de que Tel Aviv está pichada em um placa porque eles consideram aquele lugar a verdadeira Sodoma e Gomorra encarnada.

Placa não indicando Tel Aviv

De lá, segui para a Cidade Velha. Passear por aquela cidade murada é como voltar no tempo.

Portão de Damasco

É por detrás desses muros que se encontram três locais de adoração para as três grandes religiões monoteístas: O Santo Sepulcro, o Domo da Rocha e o Muro das Lamentações. O Santo Sepulcro dispensa explicações: é o lugar onde Jesus foi crucificado e enterrado. Há uma multidão de peregrinos se aglomerando para ver o local onde eles acreditam a cruz tenha sido fincada. A administração da igreja é compartilhada entre as igrejas cristãs armena, grega, síria, copta, etíope e a católica romana, mas quem tem a posse da chave é uma família muçulmana. Isso porque sempre houve muita disputa com relação a qual igreja daria as cartas ali. Finalmente, após várias reclamações, em 1852, um decreto otomano estabeleceu o status quo: medida pela qual a administração seria compartilhada e a custódia da chave, confiada a uma família neutra.

Santo Sepulcro

Os muçulmanos, por sua vez, veneram o Domo da Rocha, o lugar onde segundo eles, Maomé subiu aos céus (Al Miraaj). O Domo da Rocha é aquela construção de domo dourado e azulejos azuis que se destaca na paisagem quase monocromática de Jerusalém. Junto com a Mesquita Al-Aqsa, o Domo da Rocha forma o esplanada do Monte do Templo. Os israelenses administram a entrada, ao passo que os palestinos administram o lado de dentro, ou seja, entrar lá é um pouco complicado para os não muçulmanos. Por questões de segurança, você só entra se os israelenses deixarem [caso não tenha nenhum tumulto lá dentro]. Mas para mostrar quem manda, os palestinos limitam a permanência no local e o horário de visitação. Além de terem proibido a entrada no Domo da Rocha – a minha maior decepção, pois eu estava doido para visitar o local. Segundo a religião judaica, foi nessa rocha [dentro do lugar que a gente não pode entrar] que Abraão sacrificaria Isaac e onde o rei Salomão construiu o primeiro templo.

Domo da Rocha

Já o Muro das Lamentações é o que restou do Tempo de Salomão, destruído pelos babilônios e mais tarde, pelos romanos. O muro foi propositadamente poupado pelos romanos como uma forma de lembrar aos judeus que Roma havia vencido a Judeia. O lugar é considerado uma sinagoga a céu aberto. Por isso, homens de um lado, mulheres de outro. Há um pedaço do muro menos conhecido que fica dentro do Quarteirão Muçulmano. E caso você esteja se perguntando o porquê de os judeus mais religiosos não pisarem no Templo da Montanha (onde hoje encontram-se o Domo da Rocha e a Mesquita Al-Aqsa), o templo era o lugar onde a Arca da Aliança estava guardada, lugar onde somente o Sumo Sacerdote poderia entrar. Por isso, para os judeus mais religiosos, é proibido entrar no complexo do Templo justamente porque eles não sabem onde a Arca estava.

Muro das Lamentações

Você não pode deixar de visitar o Yad Vashem, o Museu do Holocausto.  Pegue o VLT até a estação Mount Herzl e vá caminhando em direção ao museu. É uma caminhada de 10 minutos. Há um ônibus que leva até o museu, mas a distância não justifica. O acervo do museu é muito bom e não há como sair de lá indiferente. Como uma tragédia dessa escala pode ocorrer? Como pessoas fizeram o que fizeram e outras simplesmente observaram sem nada fazer? Eu fiquei particularmente impressionado com o Children’s Memorial. Em uma sala quase que totalmente escura, a não ser por uma vela no centro refletida em espelhos, são recitados os nomes de todas as crianças com menos de 14 anos que foram cruelmente executadas. Muito chocante. A livraria do museu merece uma visita também.

Ao andar por Jerusalém, impossível não parar para pensar na importância de um lar judaico. Depois de séculos de perseguição e opressão, finalmente os judeus têm um lugar para si, um lugar onde eles podem andar com segurança (bem, você me entende, né?). Então você passa a entender mais o motivo pelo qual eles defendem aquele pedacinho de terra com tanta veemência.

Na volta, na fila do raio-x, mais perguntas. A segurança estava desconfiada da origem do meu sobrenome. Tive que abrir a mala para ser revistada. Tudo bem, é para a minha segurança. E dessa vez, pelo menos foi na minha frente.

Thiago

Quer uma lembrança que você só encontra em Israel? Que tal um peão de Hanukah? Cada lado do peão possui uma letra do alfabeto hebraico: נ (Nun), ג (Gimel),  ה (Het) e  ש (Shin), que juntas formam o acrônimo para “נס גדול היה שם ” (Nes Gadol Haya Sham – Um grande milagre aconteceu lá). Bem, isso você encontra nos peões fabricados fora de Israel. Porque só em Israel os peões contem a letra פ (Pe) ao invés de ש (Shin). Pe de “פה” (Po – aqui). נס גדול היה פה(Um grande milagre aconteceu aqui).

Dreidel

 

  • Tatiana

    Thiago, me emocionei e fiquei com vontade de conhecer este livro de história em forma de cidade!
    Agora que meu passaporte não tem mais o visto libanês, quem sabe fica mais facil eu entrar, não é?
    Abraços

    • Thiago Magalhães

      Tatiana, vá mesmo, seja qual for o seu interesse, é uma viagem imperdível. E que bom que você gostou do texto.
      Um abraço!

  • Renata

    Thiago, adorei o texto. Keep walking!

    • Thiago Magalhães

      Pode deixar. Afinal de contas, 2013 acabou de começar! =]

  • Tame

    Adorei seu texto. Jerusalém é, de fato, especial, até pra não religiosos, porque é impregnada não só de religiosidade, mas de História e de reconhecimento. Nunca vi peiot tão longas como as do ortodoxo ruivinho. A inspeção da segurança é tão rígida que a gente se sente assim, mesmo, na dúvida, se perguntando: será que minha mala oferece algum perigo? Será que EU ofereço algum perigo? Hahahaha! Mas é claro que isso tudo é necessário, há motivos.

  • Andressa

    Show! Meus pais querem conhecer! Vou mandar o link para eles